Dinheiro: Novas formas de pagamento

Do escambo às moedas digitais, tudo mudou. Se ontem buscávamos uma forma de uniformizar as transações, hoje o mercado caminha para uma descentralização do poder. De moedas de troca contemporâneas a meios de pagamento inovadores, a tecnologia e os novos valores da sociedade vêm transformando nossa relação com o dinheiro – e causando grande impacto no sistema financeiro.

fev.2016

1. A evolução das transações comerciais

As transações comerciais têm uma longa história de evolução, que começa a ser traçada no Egito Antigo e segue evoluindo a passos largos até hoje. De lá para cá, a questão do lastro sempre foi um complicador, mas não um impeditivo para que as transações acontecessem e novas tecnologias fossem implementadas aos processos.

O que ninguém sabia, naquela época, é que outro tipo de troca ia surgir depois de muito tempo. Vamos trocar likes?

9000 a.c.

Escambo

No Egito Antigo estão os registros das primeiras transações comerciais a partir do escambo, que nada mais é do que a troca de mercadorias ou serviços por outras mercadorias ou serviços. No entanto, essas trocas não tinham um lastro bem definido e o produto de um agricultor não seria equivalente ao de um pecuarista, por exemplo. Com o surgimento de outros produtos na rota do comércio, como papiros egípcios, pedras preciosas, grãos e óleos essenciais, alguns problemas no "preço" das trocas foram registrados.

600 a.C.

A primeira moeda

O primeiro registro de uma moeda aconteceu no Reino de Lídia, que hoje faz parte do território da Turquia. Com tamanhos irregulares, eram feitas de electro, uma mistura de ouro e prata. O lastro era definido de acordo com o peso dessas moedas, que tinham um peso mínimo de 0,15 grama.

1252

A estabilidade da moeda

A República Fiorentina, situada no território onde hoje está Florença, foi a primeira a manter uma moeda de certa estabilidade, o florim. Feita de ouro, tornou-se uma referência na Europa entre os séculos XIII e XIV, pois era aceita em quase todo o continente e, como tinha um controle estável do lastro, incentivou o comércio do continente.

1661

A popularização do papel-moeda

Durante a Idade Média, o hábito de guardar os bens com um ourives começou a se popularizar. Para garantir a segurança, era fornecido um recibo, que passou a ser aceito como forma de pagamento. A circulação desses recibos de mão em mão acabou dando origem à moeda de papel. As notas foram introduzidas na Europa por volta de 1290, por viajantes como Marco Polo, que vinham da China, onde as cédulas já circulavam desde o século XI. Na Europa, o primeiro país a adotar oficialmente o papel moeda foi a Suécia, em 1661. De lá para o Brasil, passaram-se quase 150 anos e as notas chegaram aqui em 1810.

1871

A primeira moeda eletrônica

A empresa americana Western Union deu origem ao conceito de e-money quando realizou a primeira transferência de fundos via telegrama.

1950

A chegada do cartão de crédito

A bandeira Diners Club, popular até os dias de hoje, foi criada em 1950 depois que Frank McNamara se viu sem dinheiro no bolso para pagar a conta em um restaurante.

1967

Ampliando o atendimento: o caixa eletrônico

Sediado em Londres, o Barclays Bank teve a ideia de trocar cheques por dinheiro em estações de autoatendimento. Na época, os cheques eram impregnados com Carbono 14, uma substância tóxica, e as trocas eram de no máximo £10 por vez.

1983

Atendimento telefônico

O Banco da Escócia foi o primeiro banco a oferecer serviços bancários pelo telefone aos clientes. No entanto, para fazer transferências e pagar contas, era preciso usar ao mesmo tempo o telefone e uma televisão.

1990

O surgimento do internet banking

O conceito de internet banking nasceu junto com o boom da internet, mas o conceito só foi se popularizar cerca de 10 anos depois, pois havia certa desconfiança por parte dos internautas.

1997

Pagamento self-service

Os meios de pagamento contactless, ou seja, sem contato com um atendente, surgiram com a rede de postos de gasolina Mobil Oil, que introduziu o SpeedPass, uma tag de pagamento eletrônico que permitia aos consumidores pagarem pelo combustível direto na bomba. Hoje, esse tipo de iniciativa ganhou muita força.

2005

Segurança nos cartões

Os cartões de crédito, grandes alvos de fraudes bancárias, foram ganhando cada vez mais segurança, mas somente em 2005 chegaram ao padrão atual, com tarjas magnéticas e chips eletrônicos. A autorização via senha só se popularizou alguns anos depois.

2009

Bitcoins

O primeiro artigo sobre moedas digitais, programáveis e criptografadas, foi publicado em 2008, por Satoshi Nakamoto. A emissão dos primeiros bitcoins, no entanto, aconteceu em 2009, chamando a atenção do mercado. Hoje, já são aceitos em diversos estabelecimentos comerciais.

É notável que à medida que o dinheiro e as trocas de moeda passam por uma ressignificação e novas tecnologias são aplicadas associadas aos valores da sociedade, modifica-se também o cenário das transações comerciais.

Esse universo, tão dinâmico e imprevisível, segue mudando a todo tempo. Atualmente, as moedas digitais e os pagamentos via dispositivos móveis parecem ser a bola da vez. É isso que vamos explorar mais a fundo nesta edição do Atualize-me. Vamos em frente?!

Quanto vale o seu real?

Ao longo da história do Brasil, desde a colonização, nossa moeda já foi substituída várias vezes, principalmente para corrigir a inflação. Desde 1994, no entanto, o real é a nossa moeda.

Quer saber quanto vale o real em moedas brasileiras anteriores?

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2. Moedas digitais e a nova dinâmica do mercado financeiro

Com a evolução tecnológica e a necessidade de agilizar e desburocratizar processos, começam a surgir várias novas soluções, como as moedas digitais, que começam a movimentar o mercado financeiro de uma nova forma.

Antes de partir para essa discussão, vamos identificar o que é entendido como dinheiro em Belo Horizonte.

Dinheiro, então, para a maioria dos nossos entrevistados, é meio de pagamento e uma forma encontrada para a troca de bens. Assim, não precisamos ficar presos à noção do papel moeda e do dinheiro impresso. Independente da tecnologia, a percepção de dinheiro pode permanecer a mesma. Ponto para as moedas digitais.

Se você ainda não entendeu o que são essas tais moedas digitais, pode ficar tranquilo, a gente vai te explicar agora.

A moeda digital é descentralizada e sem fronteiras, com transações que acontecem exclusivamente online, mas pode ser utilizada para adquirir bens e serviços na vida real. A tecnologia permite que qualquer pessoa ou instituição transfira fundos automaticamente para outra pessoa ou instituição sem qualquer tipo de intermediários e de forma segura.

As moedas digitais não têm vínculos com instituições bancárias ou governamentais e podem ser convertidas em outras moedas, com o potencial de expandir o comércio internacional, apoiando a inclusão financeira, transformando a forma como os negócios acontecem em nível global.

Antes de seguir em frente, precisamos fazer uma distinção importante entre os dois tipos existentes de moedas digitais:

Moeda Virtual x Criptomoeda

Moeda Virtual é uma moeda vinculada a uma comunidade específica e não precisa ter um valor monetário real. É o caso de programas de fidelidade, moedas de jogos online, entre outras.

Criptomoedas são as tais moedas descentralizadas e independentes. Elas têm valor flutuante e a segurança da transação é assegurada pela dificuldade de se decifrar as informações criptografadas.

Daqui para frente, quando falarmos de moedas digitais, estaremos nos referindo às criptomoedas.

Criptomoedas

Atualmente existem mais de 700 criptomoedas em circulação para negócios online. A mais conhecida delas é o bitcoin, que é também a mais aceita em estabelecimentos mundo afora. Por não ter a necessidade de intermediações de instituições financeiras, ganhou força e valorizou 92% frente ao real em 2015. Na data de fechamento desta edição, 1 bitcoin valia cerca de R$ 1.800.

O preço de uma criptomoeda é determinado por oferta e demanda e as moedas são mineradas (ou seja, criadas) pelos computadores dos próprios usuários, tornando o seu valor volátil. Atualmente existem cerca de 7 milhões de moedas bitcoin em circulação e a previsão é que a "produção" seja interrompida em 2035, quando atingir o limite autoimposto de 21 milhões de moedas em circulação.

Quer acompanhar a cotação do bitcoin? É só clicar aqui.

O bitcoin foi pensado para ser uma solução do problema financeiro do mundo moderno, tendo potencial para ser uma moeda global. A principal diferença é que se baseia em provas protegidas por criptografia, e não na confiança entre pares. Como não tem regulamentação governamental, faz com que as transações sejam quase anônimas: identificam-se apenas as carteiras de onde entram e saem dinheiro, mas não a identidade por trás delas.

As carteiras digitais são as responsáveis pelas transações de bitcoins, funcionando como uma espécie de controle, garantindo a segurança de uma transação P2P (peer-to-peer, ou seja, entre duas pessoas). Para enviar ou receber quantias da moeda, basta criar um endereço na carteira e as operações – que são irreversíveis – ocorrem de forma similar a um envio de e-mail: endereço x envia uma quantia para o endereço y e os números são automaticamente atualizados nas duas contas.

Quer abrir uma carteira de bitcoins? Conheça algumas possibilidades:

A Mercado Bitcoin, principal carteira brasileira de bitcoins, conta com mais de 100 mil clientes e movimenta uma média de 12 milhões de reais por mês. Por aqui ainda existe um certo pé atrás em relação às moedas digitais, mas já é possível utilizá-la em vários estabelecimentos, em segmentos diversos, que vão desde construção até o educacional. Um exemplo interessante é da universidade FIAP, que, além de aceitar pagamentos de mensalidade com a moeda, conta com um caixa eletrônico dedicado a ela na sua unidade de MBA.

A gente imagina que, nesse momento, você esteja se perguntando quais são os estabelecimentos que aceitam o bitcoin, para citar um exemplo de criptomoeda. Atualmente existem empregadores que remuneram usando bitcoin e também mapas colaborativos que informam quais locais próximos a você aceitam a moeda. Aqui em Minas Gerais, no entanto, ainda não são muitos.

Descubra as possibilidades perto de você:

Life on Bitcoin

Assim que voltou da sua lua de mel, um casal norte-americano se propôs a viver os três meses seguintes usando somente bitcoin. O reality show, financiado por crowdfunding pela plataforma Kickstarter, pode ser acompanhado por aqui.

As desvantagens do bitcoin

A popularização de criptomoedas potencializa o crescimento do comércio internacional, favorecendo novos negócios. As baixas taxas das transações, a agilidade, a segurança e a conveniência são pontos fortes que podem desestabilizar o sistema financeiro atual, caso tenha grande adesão.

No entanto, nem tudo são flores no mundo dos bitcoins. Pelo fato de ser uma moeda descentralizada e não regulamentada, existe uma favorabilidade para ser utilizada para fins ilegais, seja para transferir valores referentes a atividades ilícitas, seja para lavagem de dinheiro.

O bitcoin garante que as atividades ilegais não são tão facilitadas assim, uma vez que, para abrir uma carteira digital, é necessária a realização de um cadastro.

Na Alemanha, o governo já reconheceu o bitcoin como uma "unidade de conta", autorizando transações privadas e prometendo taxar as movimentações da moeda, alterando o objetivo principal.

A volatilidade do bitcoin também é um complicador que exige cautela no uso, uma vez que o investimento pode perder valor com muita velocidade.

Mesmo que uma adesão generalizada seja improvável – por enquanto –, pela instabilidade e aceitação da moeda, o bitcoin causa um impacto significativo. Bancos centrais de países como o Canadá e o Equador já têm estudos de emissões de moedas garantidas pelo governo no futuro. Essa medida cortaria custos do sistema de pagamento e daria às autoridades monetárias mais controle sobre a oferta de dinheiro, valendo-se da criptografia. Segundo o Wall Street Journal, embora o cenário não tenha uma data prevista, a relação com o dinheiro já está sendo transformada.

Trocas de luxo

Se a gente te contar que marcas de luxo já aceitam o seu tweet como pagamento, você acredita? A Marc Jacobs, em Londres, criou uma pop-up store exclusiva com pagamento realizado apenas com mensagens postadas na rede social. Confira a experiência:

3. A revolução dos meios de pagamento

Com as moedas digitais começando a se espalhar e lentamente ganhando popularidade frente ao público, é possível notar que as preferências de forma de pagamentos começam a se modificar e a circulação do papel-moeda é lentamente reduzida. Quais serão os meios de pagamentos e serviços financeiros preferidos pelos belo-horizontinos?

Formas de pagamento mais utilizadas em Belo Horizonte

Serviços financeiros mais utilizados pelos mineiros:

Felizes com seus bancos

O que é importante para a escolha de um banco?

Trocar de formas não financeiras é uma realidade para 82% dos mineiros.

97% dos mineiros acreditam que é vantajoso participar de programas fidelidade.

Moedas digitais:

Quando questionados se investiriam em moedas não vinculadas ao sistema bancário central, os mineiros responderam:

Entre os que responderam sim, os fatores que justificam a escolha são ligados à conveniência, praticidade e inovação. Alguns, por outro lado, mesmo dizendo que fariam o investimento, só o fariam se houvesse algum benefício em relação à moeda tradicional.

Entre os que responderam não, argumentos ligados à insegurança, desconfiança, desconhecimento e fraudes justificam a escolha.

Bitcoin ainda engatinha:

Questionados se as moedas digitais e pagamentos móveis substituirão o dinheiro físico nos próximos anos, os mineiros se mostraram bem divididos:

Enquanto as moedas digitais movimentam carteiras na internet, há uma especulação sobre o futuro do dinheiro físico: será que estamos caminhando para uma sociedade “cashless”? Em 2013, Obama levantou a bandeira em prol da eliminação das moedas de um centavo americanas, que custam em torno de 1,8 centavo de dólar para serem produzidas.

A Suécia (primeiro país a adotar a cédula, lembra?) caminha para ser o primeiro país a abolir notas e moedas. Seis dos principais bancos do país se juntaram e criaram o Swish, um sistema digital que permite que os clientes dos bancos façam todo tipo de transação – incluindo compras em estabelecimentos físicos, transferências e pagamentos de contas – pelo celular. O sistema, que já conta com mais de 3 milhões de usuários registrados (quase 1/3 da população sueca), tem sido um dos principais fatores a contribuir para a transição do dinheiro físico para o dinheiro digital no país.

Pagamentos mobile

Se por um lado custa caro produzir e gerir o dinheiro físico, por outro o dinheiro tem sido bem empregado no fomento de inovações para criar formas de pagamento alternativas que sejam vantajosas tanto para o consumidor quanto para o mercado. Nesse cenário, o chamado pagamento móvel (que utiliza o smartphone para efetuar transações) tem crescido bastante. De acordo com estudo do Statista, os pagamentos móveis movimentaram US$ 450 bilhões no mundo todo em 2015, com previsão de chegar a US$ 1 trilhão em 2019.

Os pagamentos móveis podem ser divididos em algumas categorias principais:

Comércio mobile:

Compras efetuadas online através do celular, em que é preciso entrar nos sites/apps e inserir ou confirmar as informações do cartão de crédito. Muitos desses aplicativos são oriundos de portais de comércio online já consagrados, como eBay, Mercado Livre, AliExpress, Dafiti, OLX e Amazon, e disponibilizam opções de download para os sistemas Android, iOS, Windows Phone e Blackberry.

Pagamentos mobile “sem contato”:

Os números do cartão estão salvos no celular, bastando selecionar a opção no aparelho e aproximá-lo da máquina para que o pagamento seja efetuado. Os pagamentos “sem contato” – que ganharam notoriedade com a chegada no mercado do Apple Pay e do Google Wallet – se baseiam em tecnologias como a NFC (Near Field Communication ou Comunicação por Campo de Proximidade, que permite a troca de informações sem fio, automática e de forma segura entre dispositivos compatíveis que estejam próximos um do outro) e a RFID (Identificação por Rádio Frequência, que “viabiliza a comunicação de dados automática através de etiquetas com chips ou transponders que transmitem a informação a partir da passagem por um campo de indução”). Nos EUA, mais de 40% dos varejistas já aceitam pagamentos via NFC. No Brasil, a tecnologia ainda está sendo implementada, sendo o Banco do Brasil o pioneiro por aqui, permitindo que os clientes utilizem o Ourocard-e (uma espécie de cópia virtual do cartão original) para efetuar compras através de app para Android.

Carteira mobile:

Tem o objetivo de substituir a carteira física, guardando as informações de todos os cartões de crédito, débito e de programas de fidelidade, além da opção de conectá-la a uma conta bancária, fazendo movimentações diretamente do celular, seja por aproximação ou manualmente. A carteira digital do PagSeguro é uma das primeiras a funcionar no Brasil. Enquanto lá fora os consumidores já contam com diversas opções (Amazon Pay, Samsung Pay, Android Pay, entre outras), por aqui a tecnologia ainda está engatinhando. Uma das principais vantagens das carteiras digitais é poder sair de casa sem precisar levar dinheiro ou cartão.

SMS/USSD:

Em casos de países menos desenvolvidos e grupos de menor poder aquisitivo, existem as tecnologias SMS e USSD para a transmissão de mensagens independentes de conexão a internet, valendo-se apenas da rede de telefonia móvel. As duas tecnologias transmitem mensagens que aparecem automaticamente na tela de qualquer celular. No Quênia, desde 2007, a Vodafone oferece um serviço de banco pelo celular, o M-Pesa, que utiliza a tecnologia USSD. Com ele, é possível utilizar créditos de celular para pagar contas e efetuar transações, sendo uma alternativa para clientes que não possuem contas em banco. Por lá o serviço já movimenta mais de 11% do PIB do país, sendo o meio de pagamento mais utilizado por 45% da população adulta.

Máquinas mobile:

O celular se transforma em uma máquina de cartão de crédito, seja através de apps ou gadgets acoplados a ele. Fundada em 2009, a Square revolucionou a forma como o comércio opera ao permitir que qualquer aparelho celular seja transformado em um leitor de cartões de crédito. Pioneira no ramo, com taxas mais competitivas que as máquinas convencionais e com interfaces extremamente amigáveis, a empresa ampliou as possibilidades de vendas para empreendedores de pequeno porte.

O futuro dos pagamentos móveis

O pagamento móvel não representa apenas uma nova forma de pagamento, mas uma imensa transformação na nossa relação com o dinheiro. De uma situação pontual – pegar o dinheiro para efetuar um pagamento –, nossa relação com o dinheiro e o varejo passa a ser contínua e sempre conectada, indo além da nossa percepção de tempo e espaço. Com a chegada das novas tecnologias, vamos começar a ver o pagamento como uma ferramenta flexível, que não se limita a qualquer lugar ou plataforma.

No entanto, esse tipo de transação ainda precisa lidar com barreiras como a adesão dos usuários ao novo sistema – principalmente no que tange aos idosos e àqueles que não possuem smartphone ou conta no banco ou cartões de crédito –, a instabilidade do sistema, a segurança e privacidade dos dados e até mesmo as burocracias e possíveis obstáculos legislativos.

Pagamentos P2P

Com o boom de aplicativos financeiros e a conveniência da internet, os pagamentos peer-to-peer já movimentam U$ 1 trilhão no mundo, representando uma ameaça real ao sistema bancário. Facebook (que permite o envio de dinheiro via Messenger), Google Wallet (que permite o envio de dinheiro por e-mail ou pelo app), Paypal (também por e-mail) e PopMoney (envio de dinheiro por e-mail ou SMS) são alguns dos principais players do mercado, que conta também com o Ripple, um sistema de pagamentos que permite transações globais instantâneas a baixo custo, sendo uma maneira disruptiva de fazer negócios. Emprestar dinheiro para desconhecidos também tem movimentado a economia, com empresas como Lending Club e Zopa facilitando empréstimos P2P a taxas mais competitivas que a dos bancos.

Wearables

Com a vantagem de serem ainda mais práticos que os celulares, uma vez que já estão presos ao corpo, os wearables – gadgets vestíveis inteligentes – vieram para ficar. Seja através de relógios (como Apple Watch, Samsung Gear, Pebble Pagaré, Watch2Pay), pulseiras (Jawbone, Bpay – vinculado ao Barclays Bank, PushCoin, Nymi), anéis (Kerv, Sesame) ou até mesmo jaquetas (Lyle & Scott), efetuar transações por aproximação com wearables é uma ação ainda mais fluida e “invisível” do que nas outras modalidades de pagamentos móveis. Estima-se que, até 2018, metade dos pagamentos que ocorrem no mundo serão feitos através de smartphones ou wearables.

Pagamentos biométricos

Agora, para aqueles que não querem carregar nada – nem mesmo o celular –, a biometria tem sido cada vez mais utilizada como modalidade de autenticação de identidade para a realização de pagamentos. Como cada pessoa tem características singulares e os algoritmos do sistema são os responsáveis por reconhecer as informações biométricas, o risco de fraude nesse tipo de pagamento é muito pequeno, sendo considerado uma forma mais segura de efetuar transações. Tecnologias recentes permitem que pagamentos sejam feitos através de impressões digitais (Touche, My Touch, Kimaldi), de reconhecimento de padrões de veias (Biyo, Palm Secure), reconhecimento facial (Uniqul) e até mesmo através de selfies (Mastercard). De acordo com pesquisa da Juniper Research, em 2019 teremos mais de 770 milhões de aplicativos de autenticação biométrica baixados anualmente.  

Com vasta experiência no mercado financeiro e atualmente trabalhando como mentora para FinTechs na região da baía de São Francisco, na Califórnia, a consultora de design e inovação Wingee Sin conversou com o Atualize-me sobre suas percepções acerca do futuro da nossa relação com o dinheiro.

Segundo Wingee, o dinheiro ainda é uma forma de assegurar e equilibrar valores, seja ao longo do tempo, entre países ou para controlar a troca de valores. Mesmo sabendo que o acesso à tecnologia não é regular em todos os lugares do mundo, a especialista acredita que o dinheiro físico tem, sim, uma tendência a sair lentamente de circulação. 

Para ela, existe também uma mudança geracional que contribui para os avanços de novas formas de pagamento, uma vez que que as gerações mais jovens confiam cada vez mais na segurança de meios digitais e, por isso, tornam-se mais independentes de instituições financeiras tradicionais. Essas gerações, completamente familiarizadas com tecnologias digitais, abrem espaço para que inteligências artificiais passem a participar ativamente de transações financeiras, com o mobile tomando conta de todas as trocas de valores.

Pela capacidade de disrupção em um ambiente tão regulado e tradicional, Wingee chama atenção para as FinTechs, que podem ser responsáveis por passos significativos no sentido de popularização das moedas digitais. No entanto, não acredita, ainda, que o Bitcoin, por exemplo, é o caminho definitivo. "Acho que o Bitcoin é como o Netscape. Daqui algumas versões, acho que vamos ver o que vai ser a real moeda digital."

4. O fenômeno FinTech

O Vale do Silício está chegando, trazendo um monte de startups com cérebro e dinheiro para mudar a nossa indústria.

Jamie Dimon, presidente do banco JPMorgan

Retirado da carta anual endereçada aos acionistas da JPMorgan em abril de 2015, o trecho acima sinaliza que, após anos de estabilidade, a hegemonia do sistema bancário atual pode estar ameaçada. Uma nova realidade está surgindo a partir da tecnologia e é liderada por startups que ganharam o nome de fintechs – abreviação para Financial Technology.

O termo vem sendo amplamente utilizado pelo mundo dos negócios para designar empresas que criam produtos inovadores, aliando finanças e tecnologia. Na prática, as fintechs são substitutos modernos dos bancos e financeiras, só que com uma estrutura bem mais enxuta (o que reduz o custo dos serviços), tecnologia de ponta (o que confere grande eficiência), alcance ilimitado da internet e, consequentemente, menos burocracia.

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Segundo a empresa de pesquisa Venture Scanner, o número de fintechs já chega a 1.406. A maior parte delas surgiu há seis anos – não por acaso, depois da crise financeira mundial. Em 2014, foram responsáveis pela captação de US$ 29 bilhões com fundos de investimentos. O grupo de investimentos Goldman Sachs estima que US$ 4,7 trilhões em receitas dos bancos podem ir parar nas mãos dessas empresas. Percebeu porque o alerta de Dimon não foi um mero acaso? Em um cenário antes difícil de ser imaginado, começa a se desenhar uma disputa de mercado entre Wall Street e o Vale do Silício.

 

Novas soluções bancárias

Comparada a outros setores, a indústria financeira passou praticamente ilesa pelas disrupções tecnológicas. Os maiores players do segmento (com exceção do PayPal) são os mesmos há quase 20 anos. Até agora. Isso porque o Vale do Silício está apostando nas fintechs para desbancar, literalmente, os bancos. O assunto vem tornando-se a bola da vez e atraindo olhares e bolsos de centenas de investidores. As soluções oferecidas por essas novas empresas são diversas, mas todas trazem um objetivo comum: contribuir para a sua organização financeira.

Consultores robôs

Se as máquinas processam algoritmos e informações de forma tão rápida, por que não pedir a elas um aconselhamento na hora de investir o seu dinheiro? Essa é a ideia por trás dos consultores robôs, serviço online de gerenciamento financeiro que fornece uma gestão de portfólio automatizada, sem o uso de planejamento humano. Considerada a democratização do conselho de investimento, essa modalidade ajuda a fomentar a educação financeira e traz mais estabilidade para clientes, uma vez que as plataformas oferecem conselhos personalizados baseados em dados e total transparência com relação a taxas e impostos. Inspiradas pela ideia de que administrar seu dinheiro não deve ser caro, exclusivo ou demorado, empresas como a Future Advisor, Wealthfront e Betterment pedem que os consumidores preencham um questionário no site sobre sua situação atual e seus objetivos financeiros futuros, e, a partir das respostas, os algoritmos revelam os investimentos ideais para cada um deles. O serviço, no entanto, ainda não é recomendado para quem busca investimentos complexos, mas sim para aqueles que não têm acesso ou conhecimento suficiente para tomar esse tipo de decisão.

Empréstimos online

Desde a crise financeira de 2008, as empresas de pequeno e médio porte têm sofrido com o corte de financiamento do setor bancário tradicional, o que impacta negativamente sua capacidade de crescer e criar postos de trabalho. Para preencher a lacuna entre as necessidades desses empresários e a capacidade dos bancos de atender essa demanda de forma eficaz, empresas como Biz 2 Credit, Kabbage, On Deck e Bank Fácil oferecem, em parceria com instituições financeiras, empréstimos mais rápidos e eficientes para um público maior do que o tradicionalmente atendido pelos bancos. Como as transações são 100% online, sem qualquer interação física, serviços de IP e criptografia garantem grandes quantidades de informação para avaliar perfis de risco e padrões de clientes, evitando fraudes.

Comparação de players de mercado

Em uma indústria como a de seguros, que se localiza na interseção de dados financeiros, de saúde e físicos, a transparência pode ser um grande trunfo da tecnologia. Com um sistema que faz uma comparação entre várias operadoras de seguro de carro e mostra a solução mais viável para o cliente, o Google Compare se articula baseado na sua captura de dados em uma escala global, oferecendo sempre a melhor opção para o consumidor. A empresa mineira Melhor Câmbio faz uma busca das melhores cotações de moedas estrangeiras de acordo com sua localização, mostrando em tempo real os valores em diferentes casas de câmbio.

Gestão financeira

Planilhas complexas, pastas recheadas de faturas, cadernetas cheias de rabiscos, pilhas de recibos espalhados por toda a casa. Se antes organizar as finanças parecia uma tarefa impossível, agora a dificuldade ficou no passado. Empresas como a americana Mint e a brasileira Guia Bolso oferecem controle financeiro em poucos cliques. Com o objetivo de monitorar e organizar o seu fluxo de caixa, elas reúnem em um só app todas as suas contas, rastreando suas movimentações em contas-correntes de múltiplos bancos, cartões de crédito, débito e aplicações financeiras e compilando-as em categorias. Além de organizar suas entradas e saídas em tempo real, eles comparam sua atividade com os meses anteriores, dando um verdadeiro panorama de sua saúde financeira.

Neobanks

Imagine resolver todas as suas questões financeiras no ambiente virtual, de forma rápida, simples e sem complicações. Essa é a proposta dos neobanks, empresas que oferecem serviços financeiros 100% mobile, funcionando como uma espécie de banco sem agências. Focados na experiência do usuário, seu objetivo é oferecer mais conveniência e praticidade para os clientes, que contam com diversos canais de suporte. Por ter a tecnologia como proposta de valor, seus produtos digitais superam a experiência dos bancos convencionais, sendo o tipo de serviço ideal para os Millennials e para os que não possuem contas em bancos tradicionais. Empresas como a Simple, Atom, Moven, Bank Mobile e Number26 oferecem serviços bancários como conta-corrente, poupança e cartão de crédito sem taxas e totalmente controlados por um app. No Brasil, o destaque é da Nubank, que passou a valer U$ 500 milhões após rodada recente de investimentos e tem se destacado no ambiente fintech. A empresa, que se denomina a “nova geração de serviços financeiros”, oferece um cartão de crédito gerenciado por smartphone sem taxas e sem vínculos com qualquer banco.

5. Como anda a relação com seu banco?

O sistema bancário foi, por muito tempo, o retrato da burocracia e ineficiência. Nos EUA, em 2009, a crise financeira escancarou para a indústria da tecnologia que uma das maiores oportunidades seria reimaginar o empréstimo bancário para consumidores. As pessoas estavam buscando alternativas e várias startups surgiram para atender tal demanda. No coração desse mercado emergente, havia o desejo de retirar os bancos da equação e conectar investidores diretamente com quem precisasse de capital. Estabilidade, transparência, menor duração e riscos eram as palavras de ordem.

 

À medida que os indivíduos buscam uma experiência mais transparente e menos burocrática e que as fintechs ganham espaço no mercado, conseguimos vislumbrar que muitas instituições financeiras correm o risco de desaparecer nos próximos anos, como resultado da disrupção digital e do momento Uber que estão vivendo. Mas, o que será que os bancos têm feito para enfrentar esses novos players e satisfazer seus clientes?

Em busca de mudanças

O Open Bank Project é um projeto de API em código aberto e app store para bancos desenvolverem aplicativos e serviços digitais de forma mais rápida e com maior transparência.

 

O Citi Group tem se movimentado para construir o “banco do amanhã”. Além de contratar executivos da indústria de tecnologia para fazer parte do seu quadro de funcionários, lançou a Citi Mobile Challenge, uma aceleradora virtual focada em inspirar desenvolvedores a reimaginar o mobile banking e criou a Citi Fintech, com um modelo de negócios centrado em smartphones, visando entregar uma experiência radicalmente simples para o consumidor. 

O Itaú, além de investir mais de R$ 3 bilhões em um novo data center que cuidará dos processamentos e armazenamentos do banco, tem investido também em iniciativas tecnológicas. Cofundador do Cubo – uma associação sem fins lucrativos de fomento ao empreendedorismo de tecnologia em São Paulo que conta com mentoria para startups, espaço de coworking e facilitação de networking –, o banco visa incentivar a inovação. Recentemente ele lançou o Itaú Tokpag, um aplicativo para realizar pagamentos e enviar dinheiro de forma mais rápida, e também o iConta, um pacote de serviços para clientes que visam ter uma experiência 100% digital no banco.

 

O Bradesco também tem investido em inovação, fazendo viagens de pesquisa constantes e parcerias com espaços de coworking do Vale do Silício, visando antecipar as novidades tecnológicas. Por aqui, ele lançou o InovaBra, um programa de inovação aberta que visa apoiar projetos de startups com soluções aplicáveis e adaptáveis para o setor financeiro. Pioneiro na tecnologia no Brasil, ele é um dos únicos bancos a oferecer o serviço de depósito de cheques pelo celular, trazendo mais conveniência para o consumidor ao eliminar a necessidade de se deslocar ao banco para depositar cheques.

Mas, calma! Não estamos dizendo que os bancos vão desaparecer de uma hora para outra. Afinal, eles possuem infraestrutura e capital suficientes para se manter vivos e ativos durante um bom tempo. Sendo assim, o desdobramento mais provável é uma parceria entre o antigo e o novo: as startups, que são boas em tecnologia, inovação, branding e envolvimento do cliente, têm muito a ensinar para os bancos que, com a tradição e articulação adquiridos após anos no mercado, são parceiros estratégicos interessantes. Inclusive, diversas fintechs americanas foram adquiridas por grandes bancos em 2015, o que mostra que uma união entre elas é realmente um caminho possível. Principalmente quando pensamos na geração de correntistas que está chegando.

Bancos x Millennials

De acordo com pesquisa da Goldman Sachs, 33% dos millennials acreditam que em cinco anos já não precisarão mais de um banco, e metade deles espera que os serviços bancários sejam prestados por startups. Em 2038, eles serão a geração mais importante em termos de finanças.

6. O futuro do dinheiro

No futuro, sabemos que a tecnologia fará parte integral de nosso cotidiano. Nossa vida financeira, ao que tudo indica, não fugirá à regra. Caminhamos para uma era de inclusão, em que o poder migrará de grandes instituições para as mãos dos usuários. O que muda na prática? Os bancos terão que repensar suas estruturas de atendimento, seus serviços e, principalmente, suas propostas de valor. Ao promover uma revolução junto ao mercado de finanças, as tecnologias digitais acabam por torná-lo, de forma nunca antes vista, mais democrático.

Softwares permitem moedas serem muito mais do que apenas unidades estáticas de valor. Moedas digitais se tornam muito mais do que transferências de valor e os bancos, por extensão, precisarão se tornar mais do que instituições que realizam um bom trabalho movimentando dinheiro. No futuro do dinheiro, transferências bancárias serão commodities. Conveniência, flexibilidade, transparência, acessibilidade e tarifas baixas são apenas alguns exemplos daquilo que estamos buscando.

Essa mudança já está a caminho. Bancos como conhecemos hoje irão mudar drasticamente, assim como sua própria definição, e, com isso, sua carteira nunca mais será a mesma. Está na hora de preparar suas finanças para o futuro. Vamos começar?

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