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#14

ENTRETENIMENTO

ENTRETENIMENTO

Um retrato do consumo de TV no Brasil

A primeira transmissão televisiva da história aconteceu há cerca de 80 anos. Parece pouco tempo de vida para uma companheira de tão longa data, não é mesmo? Mas aquele que era considerado o maior e mais bem-sucedido modelo de entretenimento começa a sofrer com o surgimento de outras telas, ainda menores. A ideia de controle, de comodidade e de poder assistir à programação onde e quando quiser está ganhando os brasileiros e, consequentemente, forçando a reinvenção de todo um segmento.

No último Censo, realizado em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) concluiu que a televisão é o mais importante aparelho doméstico do brasileiro. Ela está presente em nada mais nada menos que 95,1% dos domicílios, enquanto as geladeiras chegam a apenas 93,7%. Trata-se de um indicador definitivo do amor da nossa população pela telinha, cuja programação figura como uma das principais formas de entretenimento. Mas não foi sempre assim. Em um passado não tão distante, a primeira posição desse ranking era ocupada pelo rádio.

Evolução de presença nos lares brasileiros

Fonte: IBGE/Censo 2010.

Companheira de todos os dias

De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada pela Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, a TV desempenha um papel muito importante no dia a dia dos brasileiros, uma vez que 73% assistem à programação da telinha diariamente.

Razões pelas quais os brasileiros assistem à TV

O rádio, que tinha muito espaço junto à população, só é ouvido diariamente por cerca de 30% das pessoas, cujo objetivo principal é se informar, e não se divertir.

TV: PRA QUÊ?

Um estudo recente divulgado pelo Sesc sobre os hábitos de consumo de TV do brasileiro confirma nossa suspeita: a televisão é um artefato de entretenimento e uma forma de distribuição de notícias, de esportes e também da nossa cultura, uma vez que mais de 61% da população nunca viu um espetáculo cultural ao vivo.

O que gosta de assistir na TV?

É interessante notar que produtos de TV aberta, como novelas, filmes e jornais, têm uma participação notável mesmo considerando os percentuais de participação no mercado das televisões por assinatura. Atualmente, de acordo com a Nielsen, 47% dos domicílios brasileiros têm algum serviço pago de televisão e, mesmo assim, seus principais produtos – séries internacionais, programas culinários e reality shows – são responsáveis por uma parcela pequena da audiência nacional.

No entanto, isso pode ser, também, um reflexo da mudança na forma de assistir à TV, que se modifica rapidamente não só no Brasil, mas em toda a América Latina, com o avanço de serviços online, on demand e Over The Top (OTT).

TV por assinatura x Netflix:

Dos entrevistados que possuem serviço de TV por assinatura (60,8% do total), 60,2% já viram séries online por meio de sites de download ou streaming.

58% dos entrevistados possuem TV por assinatura e são usuários da Netflix.

Fonte: Estudo “Da pirataria à legalidade”/Atualize-me.

Serviços pagos de programação televisiva:

Além de diferentes serviços para prover programação televisiva, entram na jogada, também, novas plataformas, que passam a concorrer com a telinha, mesmo que sejam telinhas ainda menores:

Dispositivos usados para consumir serviços online de programação televisiva:

Em serviços dessa natureza, o tipo de programação consumida também sofre grande modificação:

Sabendo que esse tipo de serviço tem a programação de entretenimento como objetivo principal de contratação, outros fatores de avaliação de qualidade passam a andar de mãos dadas com a tomada de decisão. A conveniência é um desses fatores: por aqui, 84%, ainda de acordo com a Nielsen, consideram a conveniência o fator principal para preferir um serviço de video on demand em relação a uma TV por assinatura. O preço também é um fator extremamente relevante.

As grandes provedoras já precisam começar a se movimentar: atualmente, em toda a América Latina, o Brasil já é o vice-líder em intenção de troca de serviços de TV por assinatura por outros serviços de programação televisiva, perdendo apenas para o Chile.

Esse cenário indica, ainda, uma oportunidade: mais de 70% dos usuários de video on demand e serviços OTT gostariam de ter mais opções de serviços dessa natureza disponíveis.

Serviços de streaming de TV já disponíveis no Brasil:

O que ainda não chegou por aqui:

QUANDO A PIRATARIA VIRA SOLUÇÃO

Diante dos novos hábitos do brasileiro quando o assunto é assistir à TV e considerando o baixo número de serviços alternativos hoje oferecidos, soluções piratas vêm se tornando cada vez mais populares entre todos os perfis etários e socioeconômicos. Mas, quais os reais fatores de motivação que acabam por aproximar o brasileiro das opções ilegais de conteúdo?

Fatores de motivação:
Velocidade

O que é? Rapidez com que tenho acesso a novos episódios da série que quero ver.

Deus abençoe o Torrent. Senão eu não conseguiria assistir essa série maravilhosa!

Fatores de motivação:
Facilidade

O que é? Percepção de quão simples são a busca e o acesso a conteúdos dessa natureza.

Para quem está sofrendo demais com o adeus do Mega Filmes HD, pesquisando na internet encontrei um site bem organizado e com uma gama enorme de filmes e séries disponíveis. Vale a pena conferir.

Fatores de motivação:
Qualidade

O que é? Definição da imagem e transmissão/conexão.

Odeio ver séries com má qualidade. Se eu tento assistir online em HD demora dois mil anos pra carregar o vídeo.

Fatores de motivação:
Segurança

O que é? Preocupação em colocar seu computador e/ou dados pessoais em risco.

Minhas amigas tão casando e eu ainda nem sei em qual site dá pra assistir séries online sem pegar vírus.

Fatores de motivação:
Preço

O que é? Noção de custo-benefício.

A Netflix surge como uma solução, aprovada por 76% dos entrevistados. Seu preço é percebido como o maior diferencial para 64% dos respondentes, mas 55,6% atribuem à facilidade de poder assistir ao conteúdo quando quiserem o motivo da satisfação.

Se quiser pagar para ter um conteúdo ligeiramente restrito, mas de qualidade, utilize Netflix. Se quiser free com qualidade aleatória, use Megafilmes. É mais completo, mas tem 100 quilos de propaganda.

A MODA DA EXCLUSIVIDADE

Daredevil - Netflix

Para conquistar clientes e driblar a pirataria, a estratégia de oferecer conteúdo exclusivo vem sendo cada vez mais adotada, como faz a Netflix, com suas séries originais, seguido da Amazon e do Hulu.

A série Demolidor – lançada simultaneamente em mais de 50 países pela Netflix – ficou, em 2015, na segunda colocação do ranking elaborado pela Excipio das séries mais pirateadas do mundo, perdendo apenas para Game of Thrones.

A quebra do acordo entre a NBC e o Hulu é mais uma prova de que o caminho não é infalível. Segundo estudos da Universidade Carnegie Mellon, ao retirar o conteúdo da plataforma de streaming para vendê-lo em canais próprios, a emissora acabou tendo uma receita ainda menor.

O serviço de conteúdo online ideal

“Hoje, as pessoas pirateiam por uma série de fatores. Tem a questão da falta de acesso – séries que não vieram para o Brasil ou então que os canais de TV por assinatura tradicionais demoram a exibir aqui. Tem uma questão de status, de poder ver antes de todo mundo, de poder discutir, postar nas redes sociais, brincar com os memes, enfim. É o caso de Game of Thrones, por exemplo. E tem ainda a questão da facilidade. Eu baixo e vejo quando quero. E onde eu quero. Do jeito que eu quero. Com as interrupções que eu quero. É a sensação do controle.”

Thiago Cardim, publicitário e jornalista do Judão, Whiplash e Collectors Room.

NOVOS HÁBITOS, NOVA DINÂMICA DE PRODUÇÃO

Com a comodidade sendo cada vez mais protagonista na escolha do consumidor, que ganha o poder de assistir ao que quer, na hora que quer e para se divertir, a forma de consumir séries de TV vem se transformando. A essência do formato seriado, com desdobramentos semanais, vem sendo questionada e muitos espectadores preferem a prática de binge-watching, ou seja, assistir vários episódios seguidos, de uma só vez.

Essa prática já modificou a forma como esses produtos são criados, uma vez que passa a valer mais uma forma de concepção como a do cinema: em vez de vários episódios de cerca de 40 minutos, cada um com um arco dramático específico, as séries são concebidas como filmes de 13 horas de duração, com um grande arco fundamental que guia o desenvolvimento da história. Nic Pizzolatto, em True Detective (HBO), e Beau Willimon, em House of Cards (Netflix), são exemplos de autores trabalhando dessa forma.

No entanto, a mudança na construção da história é também uma aposta por parte dos estúdios: quando uma série vai ao ar em seu formato tradicional, é possível fazer adaptações e mudanças no decorrer da temporada, de acordo com a aceitação do público, para assegurar maior audiência e, consequentemente, maior receita. Mas se a história é concebida antes de ir ao ar, como tomar as decisões criativas para uma narrativa?

A resposta está no big data

O exemplo clássico dos grandes dados sendo usados na concepção de séries de TV é House of Cards, da Netflix. Nessa série, os dados sobre a preferência dos usuários baseiam desde a escolha de atores e diretores até a definição de duração dos episódios e a estratégia de lançamento.

Outro exemplo é a primeira série original do Hulu, chamada East Los High. Depois de acompanhar todos os momentos em que usuários davam play, pause, paravam de ver e voltavam a ver a série, a segunda temporada passou por uma alteração na construção do roteiro, que passou a ter mais mistérios não solucionados no decorrer da história, para uma conclusão ao final da temporada, amarrando as pontas. Com isso, o número de espectadores que assistiu aos episódios da segunda temporada um atrás do outro, sem interrupções, cresceu de forma significativa.

Para a série East Los High, as decisões saíram do universo do seriado, por si só, e passaram também para a linha de produtos licenciados com o nome da série. Uma personagem ganhou uma coleção de roupas e, outra, um canal do YouTube para falar sobre gravidez, já que estava esperando um filho na trama.

Recentemente, o lançamento de Stranger Things, série de suspense da Netflix, reacendeu o debate acerca do uso de algoritmos na construção das tramas. No caso, foram descobertos quais eram as referências do público-alvo da série, para que elas fossem homenageadas na história, criando vínculos mais fortes com quem assiste. Pode ter certeza: se você gostava do ET, de Goonies, A Hora do Pesadelo, Poltergeist e vários outros clássicos, tem tudo para curtir a série protagonizada por Wynona Ryder, também escolhida com base em dados.

Isolamento:
a realidade de Cuba

Kamira / Shutterstock.com

Diante de tantos avanços e de tantas novas possibilidades, fica difícil acreditar que muitas nações ainda vivem distante da Netflix, do Hulu e até mesmo da TV. Conheça o caminho pirata percorrido por séries, filmes e músicas até chegar à isolada ilha de Cuba.

O FUTURO DA TV

Na opinião dos mais diversos especialistas, as palavras de ordem são: internet, aplicativos e on demand. Qual a sua aposta?

ola@atualizeme.com