A (Nova) Tradicional Família Mineira

À medida que a sociedade evolui e novos valores emergem, o conceito de família passa por transformações. Se antes a considerada família “tradicional” era a normal, hoje a regra é não ter regra: de famílias constituídas por laços de sangue às formadas por vínculos afetivos, de animais de estimação que são parte da família às famílias de uma pessoa só. Diante desse cenário, a Tradicional Família Mineira apresenta uma nova identidade, construída a partir das raízes deixadas pelas gerações anteriores e de novos paradigmas.

jan.2016

Na sua origem latina, tradire, a palavra "tradição" tem a mesma raiz de tradução e traição. E a gente acha que as três derivações se complementam de alguma forma. É impossível pensar em algo que é passado de geração em geração que não leva em conta uma tradução guiada pelo espírito do tempo. E se houve uma mudança, aconteceu, em algum nível, uma traição daquilo que era o tradicional inicialmente.

Ou seja, não podemos falar dessa tal Tradicional Família Mineira, aparentemente tão imutável, como se ela estivesse, até hoje, exatamente igual. E é por isso que convidamos você a dar mais um mergulho com a gente. Vamos?

1. As novas configurações familiares

Uma coisa já é certa para todos nós: foi-se o tempo em que a única configuração de família aceita era aquela que tinha o pai, a mãe e os filhos. O conceito de família é tão fluido quanto os fatores sociais, econômicos, políticos e o cenário da ciência e da saúde de um país.

Muitas transformações são participantes na expansão de um conceito que em outros tempos já foi tão rígido. O aumento da expectativa de vida, a alta taxa de divórcios, a mulher no mercado de trabalho, o casamento tardio em prol da carreira, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, a popularização de métodos contraceptivos, a tecnologia emergente e a redução do número de filhos em tempos de economia instável são apenas alguns dos responsáveis pela alteração tão significativa do que entendemos como família.

Quando os nossos avós eram crianças, as suas árvores genealógicas eram muito mais robustas que as nossas. Uma família muito numerosa, com vários filhos, era muito comum. Nesse cenário, o pai era o provedor, que trabalhava para sustentar a família, enquanto a mãe cuidava dos filhos e transformava uma casa em um lar.

O tamanho das famílias foi começando a mudar na Primeira Guerra Mundial, quando os homens foram representar a sua pátria e as mulheres, pela primeira vez, ganharam alguma autonomia em prol do sustento do lar. Essa mudança no papel feminino tornou-se ainda mais forte na Segunda Guerra. A partir desse novo estilo de vida, o tamanho das famílias começou a reduzir, se aproximando do que vemos hoje.

Mais uma mudança significativa aconteceu nas noções de casamento. Se um dia foi senso comum o casamento longo e duradouro com a presença dos filhos, hoje já não é bem assim. Ter filhos é uma opção. Estar casado para ter filhos é outra opção. Casamentos mais curtos estão cada vez mais frequentes devido à grande proporção de divórcios – que em alguns países já é maior até que a taxa de casamentos. A igualdade de gêneros dita todas as regras e as uniões de casais do mesmo sexo estão sendo legalmente aceitas em mais países.

Mas, afinal, o que é família?

Já percebemos que o conceito de família tem que ser constantemente revisitado, levando em conta os valores socialmente aceitos de cada momento. Mas, originalmente, a palavra deriva do latim famulus, que significa escravo doméstico. Na Roma Antiga, o termo foi cunhado para designar os escravos legais que trabalhavam na agricultura das tribos da região onde hoje está a Itália. Com o tempo, a relação da família com a escravidão foi perdendo a força, ainda que esteja presente em algumas culturas para representar um extremo respeito aos ancestrais.

Sabendo que esse conceito é tão mutável, reunimos algumas definições de diferentes origens: dicionários, antropólogos, sociólogos e grandes autores estão todos misturados, a seguir, para que você escolha o conceito mais pertinente para o que você entende por família.

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O que podemos ver, então, é que a família pode assumir diversas configurações: nuclear, conjugal, monoparental, ampliada, alternativa, comunitária, entre outros. Assim, cada família é única em sua composição, o que faz com que o termo seja múltiplo por definição.

Se você está acostumado a pensar em família como pai, mãe e filhos, pode estar se perguntando como fica o seu núcleo familiar dentre tantas configurações possíveis.

É importante pensar que mesmo o mais simples dos arranjos já traz questões complexas: quantos filhos? Como será a criação dos filhos? Quem é responsável pelo financiamento da família?

O que estamos falando não é que existe um declínio da clássica família nuclear, mas sim uma mudança de papéis com as fronteiras entre gêneros se movimentando. Os homens têm mais tarefas domésticas e cada vez mais vemos mulheres como a principal fonte de renda. Além disso, são vários os casais do mesmo sexo e também vemos os Double Income No Kids (DINKS), que acabam tendo um alto poder aquisitivo.

Então, o pai pode ser pai de um cachorro ou o pai do filho da sua namorada. A mãe pode ser a provedora da casa e os filhos podem ser adotivos de um casal hétero ou homossexual.

As fronteiras da mãe e do pai

Assim como as fronteiras dos gêneros estão em constante movimento, as que delimitam o papel da mãe e do pai também estão. Atualmente, nos Estados Unidos, 40% das famílias são comandadas e financiadas por mulheres. Ao mesmo tempo em que conseguimos vê-las tomando as rédeas do lar, as vemos dominando o mercado de trabalho. Assim, começamos a ver pais acumulando cada vez mais tarefas que eram tradicionalmente das mães, cuidando mais do lar e participando mais da criação dos filhos. É muito comum, no entanto, que encontremos mulheres que não abrem mão das responsabilidades que são suas por tradição, o que faz com que sejam verdadeiras equilibristas. Mas os homens não ficam pra trás e também já começam a equilibrar o papel do "pagador de contas" com o papel do "provedor de carinho e estrutura familiar".

Meu marido lava as roupas, arruma a casa, leva e busca as meninas na escola. A cozinha continua sendo minha tarefa e a responsabilidade financeira é toda minha, eu que pago as contas da casa. Eu sempre fui muito independente, nunca quis depender de ninguém. Mas hoje confesso que estou um pouco cansada de ser a provedora. Tem dias que chego em casa e tudo o que eu quero é descansar, mas mãe é mãe independente se trabalha fora ou não. Mesmo com a ajuda do meu marido, as tarefas maternas e de dona de casa querendo ou não sempre vão existir. Tem gente que fala que sou a Mulher Maravilha, que dou conta de tudo, acho que é por aí.

Entrevistado(a). Perfil: Família Mãe Provedora.

Esse novo pai, mais presente, que divide as responsabilidades do lar e financeiras com a mãe, já está na mira de grandes marcas de produtos voltados para o público infantil, que antes focavam apenas nas mães. É o caso de Cheerios, cereal matinal, que criou a campanha #HowToDad ou, em tradução livre, "como ser pai".

 

Uma mudança interessante que vem acontecendo nas empresas é a questão da licença paternidade, que permite ao homem dividir com a mulher as responsabilidades com o recém-nascido nos primeiros meses, quando tradicionalmente ele ficava quase que sob responsabilidade exclusiva feminina. Já são 70 países que preveem licenças paternidades remuneradas: na Islândia, por exemplo, o tempo de licença para mães e pais é o mesmo: três meses.

O Netflix permite à mãe e ao pai que tirem até um ano de licença após o nascimento ou adoção de um filho. Além disso, permite que o funcionário volte aos poucos, inicialmente em meio período, para que se readapte. O Facebook também ampliou a sua licença parental para 4 meses, que podem ser utilizados de forma corrida ou divididos ao longo de um ano.

Meus pais são Millennials

Os integrantes da geração Y são normalmente associados à velocidade, inovação e empreendedorismo e, por isso, era de se imaginar que família não fosse uma prioridade. No entanto, os nascidos entre 1980 e 2000 têm como principal valor a constituição de uma família. Em alguns países, nasceram mais bebês na primeira década dos anos 2000 do que no baby boom dos anos 1970. Em um mundo de tantas mudanças, inconstâncias e tanta tecnologia, a família parece ser a única variável segura no meio do todo. E, para a maioria dos millennials, família é um grupo que se ama, independentemente do formato.

Já existem soluções para pais da Geração Y que não dispensam a forma de trabalhar característica da geração. São muitos os espaços de coworking familiares, com espaço para os profissionais liberais trabalharem e, ao mesmo tempo, cuidar dos filhos.

Representações na cultura pop

Se você chegou até aqui, com certeza já pensou em alguma composição familiar que viu em um filme, novela, livro ou seriado de TV. A cultura pop influencia muito as noções de família aceitas na sociedade, até porque é um reflexo do espírito do tempo.

1970

The Brady Bunch (1969 - 1974)

Uma grande família formada pela união entre um viúvo e uma divorciada foi ao ar entre 1969 e 1974, quando 30% dos casamentos norte-americanos incluíam um filho de união anterior na estrutura familiar. A família nuclear já não era assim tão sólida, pois se desmembrava e formava outros grupos.

1970

Diff'rent Strokes (1978 - 1985)

A mãe das crianças negras Arnold e Willis trabalhava para o viúvo rico e branco Phillip Drummond antes de falecer. Sensibilizado, ele decide adotá-los e vão todos morar uma cobertura na zona mais nobre de Nova York. O seriado conta a história do pai, com sua filha biológica, os filhos adotivos e a empregada, que acabam constituindo uma nova família.

1980

Married… With Children (1987 - 1997)

Apesar de retratar um núcleo familiar tradicional, Married… With Children tinha um pai, com grandes dificuldades de prover renda suficiente para bancar a estrutura familiar, mas ainda assim a mãe era dona de casa. Com integrantes que não tinham uma relação muito harmoniosa, inspirou várias outras séries e também remakes em outros países.

1980

Full House (1987 - 1995)

Full House deu o pontapé na discussão da criação de filhos com pais do mesmo sexo, mesmo que todos heterossexuais. Após a morte da sua esposa, o pai das crianças chama dois amigos para ajudar a criar suas três filhas. Ficou no ar por oito temporadas e recentemente ganhou continuação do Netflix, com a primeira nova temporada marcada para ir ao ar em 2016.

1990

Friends (1994 - 2004)

Em meados dos anos 90, Friends estreou retratando o dia a dia de integrantes da geração X que moravam sozinhos em Nova York, tentando conquistar uma carreira e formar uma família. A série acabou fomentando a ideia de que jovens adultos, amigos e com um forte senso de comunidade também poderiam compor uma família. Foram dez temporadas bem-sucedidas, saindo do ar em 2004.

1990

Will & Grace (1998 - 2006)

Com personagens assumidamente homossexuais, Will & Grace normalizou a questão da sexualidade, mostrando que, independentemente da orientação sexual, os mesmos problemas, dilemas e sucessos do dia a dia eram vividos por seus personagens. Foi um grande sucesso ao não apresentar os personagens sob a ótica do estereótipo.

2000

Two and a Half Men (2003 - 2015)

A série mostra o relacionamento de dois irmãos completamente diferentes que, depois de um tempo levando suas vidas separadamente, voltam a viver juntos. Enquanto um deles se separou da mulher e ficou com a guarda do filho, o outro é um bon vivant que não quer nem passar perto de um relacionamento sério.

2000

Modern Family (2009 - presente)

Desde a sua estreia, em 2009, Modern Family ainda é a série que mais mostra diferentes formatações de família vivendo em harmonia. Três núcleos familiares compõem a grande família, que tem um casamento homoafetivo, outro com integrantes de nacionalidades diferentes, filhos adotivos, filhos de casamentos anteriores e mulheres tomando as rédeas do lar. É um sucesso de audiência e da crítica, acumulando vários prêmios importantes.

2010

Mom (2013 - presente)

O seriado conta a história de três gerações de mães que decidem morar juntas após decidirem retomar o curso de suas vidas, depois de vencer os vícios em álcool e drogas. Todas as mães vivem juntas e criaram seus filhos sem referência masculina e também sustentando o lar.

2010

Life In Pieces (2015 - presente)

Ainda em sua primeira temporada, retrata formações familiares completamente tradicionais, mas mostra que o relacionamento entre os quatro núcleos de uma mesma grande família pode ser bastante conflituoso. Isso nos mostra que nem a família tradicional é tão tradicional assim.

2. O novo perfil da família brasileira

Para o Censo, grande pesquisa realizada a cada dez anos pelo IBGE para reunir informações a respeito de toda a população brasileira, a família é um "conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, residente na mesma unidade domiciliar, ou pessoa que mora só em uma unidade domiciliar. Entende-se por dependência doméstica a relação estabelecida entre a pessoa de referência e os empregados domésticos e agregados da família, e por normas de convivência as regras estabelecidas para o convívio de pessoas que moram juntas, sem estar ligadas por laços de parentesco ou dependência doméstica. Consideram-se como famílias conviventes as constituídas de, no mínimo, duas pessoas cada uma, que residam na mesma unidade domiciliar (domicílio particular ou unidade de habitação em domicílio coletivo).”

Ou seja, nem mesmo para o Censo existe uma definição rígida da família no que se refere à sua configuração.

Na última edição, realizada em 2010, já era possível notar que a família brasileira está cada vez menor e mais aberta. Foram detectados 19 tipos de estrutura familiar, contra 11 do Censo de 2000. O interessante é que, na época, somente 49,9% dos lares seguiam a estrutura familiar tradicional (pai + mãe + filhos), enquanto os outros 50,1% eram configurações diferentes.

Estruturas familiares não tradicionais:

A responsabilidade pelo lar é compartilhada em quase 30% dos casos, mas quando não é:

Casais homoafetivos morando juntos já somam 60.000

Lares formados por amigos morando juntos já somam 400 mil

Uma representação cultural dessa mudança do núcleo familiar ganhou muita força em 2011, com o surgimento dos adesivos Família Feliz, que acabou dominando as traseiras de carros, motos e caminhões brasileiros. Os adesivos eram vendidos separadamente e permitiam que cada um montasse o seu núcleo familiar, ressaltando que mais vale o sentimento de pertencimento que o que se convenciona como família.

O estatuto da família

Com muitas mudanças no conceito e nas suas composições mais comuns, é natural que exista um nó na cabeça das pessoas a respeito do que é, afinal de contas, uma família.

No Brasil, desde 2011, os ministros do STF reconheceram por unanimidade a união entre pessoas do mesmo sexo como famílias. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça regulamentou a união homoafetiva por meio de resolução que obriga cartórios a realizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, na contra corrente, em 2015 surgiu o Projeto de Lei 6583/13, o Estatuto da Família. No Projeto de Lei, família é o "núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes".

A partir dessa nova definição, cerca de 25% dos arranjos familiares brasileiros são desqualificados frente à lei enquanto família, segundo a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABLGT). Além de desconsiderar uniões homoafetivas, o Estatuto da Família também não leva em conta, por exemplo, pais e mães que criam seus filhos sozinhos. Após a votação no Legislativo, o movimento #NossaFamíliaExiste acabou ganhando muita força:

Em Belo Horizonte, apenas 33,3% dos nossos entrevistados tinham conhecimento do Estatuto da Família, que foi aprovado no Legislativo. Dentre eles:

Dentre os que não conheciam, quando apresentados ao texto do Estatuto, as reações foram diferentes:

Tenho Dois Papais

O livro infantil é uma iniciativa da designer Bela Bordeaux, formada em Design Gráfico pela Universidade Estadual de Minas Gerais. O intuito do projeto é explicar para crianças de 3 a 6 anos e (para seus papais também) o que é ter uma família diferente, ou melhor, que não há diferença alguma entre as famílias tradicionais e as homoparentais, pois: "Pessoas + Amor = Família".

Já ouviu falar em "Famílias Poliafetivas"?

Uma dentista, uma empresária e uma gerente administrativa cariocas. Em outubro de 2015 elas formalizaram sua união estável. Trata-se do primeiro caso de união poliafetiva entre mulheres reconhecida em cartório no Brasil.

Junto há três anos, esse "casal" de três pessoas já pensa em ampliar a família com um filho multiparental - que será gerado por meio de uma inseminação artificial. Isso significa que, quando o bebê chegar, ele será registrado como filho e terá o sobrenome das três mães.

3. A tradicional família mineira

A imagem construída no imaginário popular dessa boa e velha Tradicional Família Mineira está fortemente ligada ao universo rural da mineiridade. Os laços de compadria, as famílias estendidas e vários conhecidos que formam uma grande comunidade que circula dentro de um casarão.

A Tradicional Família Mineira é, sim, numerosa. Tem sua raiz no campo. Mas se engrandece ainda mais, pois em casa de mineiro sempre cabe mais alguém. Principalmente se for na cozinha. No entanto, essa imagem foi construída do ponto de vista do urbano olhando para a tradição do interior de Minas.

O mineiro simples, ressabiado, discreto e mesmo assim acolhedor e receptivo, é o principal fundador de uma família que é paternalista e se reúne em torno da mesa para falar da vida. A família tem sim os laços de sangue, mas tem também os laços dos causos. Os laços da conversa e da casa aberta para todos entrarem.

A Tradicional Família Mineira é monogâmica e nuclear, mesmo que se relacione com grandes grupos. O pai é responsável pelo financiamento do lar e a mãe pela criação dos filhos. A TFM é chamada de tradicional justamente por não ter saído, nunca, dessa formação mais habitual de família que está presente há tantos anos.

A Tradicional Família Mineira é aquela com pai, mãe, filhos, avó, avô. Tudo muito fechado. O que acontece em casa fica em casa. Todo mundo casado, sem direito ao divórcio. Todo mundo preso aos costumes.

Entrevistado(a). Perfil: Mães/Pais Solteiros.

Quando se fala em TFM, o que me vem na cabeça é a casa da minha avó. A família toda reunida: a matriarca, o patriarca, os filhos e netos em torno da mesa comendo pão de queijo e broa de fubá. Todo domingo era assim, era um ritual sagrado.

Entrevistado(a). Perfil: Família Mãe Provedora.

A Tradicional Família Mineira é aquela entidade intocável, até meio hipócrita, que tem que ser preservada a qualquer custo, que não pode ser desmembrada de forma alguma. Tradicional Família Mineira não me soa bem, Família Mineira me soa melhor. Na TFM você tem que conviver custe o que custar, é uma família imposta. Não pode ter separação, não pode ter desentendimento. Conheço várias famílias com esse perfil cujo casamento é horrível, mas não pode separar porque tem que manter as aparências para a sociedade. Quando penso na TFM penso que é uma entidade muito mais de aparência do que real.

Entrevistado(a). Perfil: Família Agregada

Na nossa época a homossexualidade era uma total negação. O assunto nem era debatido, questionado. Se uma pessoa da TFM assumia, dependendo da família, era enviada para o exterior. Tem um livro que retrata bem como era a relação da TFM com os homossexuais antigamente, chama "Paraíso das Maravilhas", do Luís Morando. É interessante para ver como a sociedade reagia aos homossexuais, como a TFM escondia seus desejos, como a imprensa relatava os casos da alta sociedade que estava envolvida em relações "proibidas".

Entrevistado(a). Perfil Casal Homoafetivo

Tradicional + Família + Mineira

Tra.di.cio.nal

Tradicional é aquilo que passa de geração em geração. E se descobrimos, como vimos lá no início desse estudo, que tradição, tradução e traição estão sempre misturadas, é de se suspeitar que a tradução da tradição para os tempos atuais tenha sofrido uma traição, no sentido de variação, de fugir da curva. Assim, será que podemos pensar em um tradicional tão imutável assim?

Fa.mí.li.a

Família é um conceito que se modifica a todo momento, de acordo com os padrões sociais vigentes de cada momento. Então, por mais que seja ressabiado, fechado e resistente, nem mesmo o mineiro deve acreditar que sua família é aquela mesma da Minas rural de anos atrás, dos grandes casarões. Será que permaneceu a mesma ao urbanizar? Será que segue as mesmas regras de norte a sul?

Mi.nei.ra

Mineira. Ah, a mineirdade. É difícil até de explicar. E se é difícil de explicar, Guimarães Rosa explica por nós: "Minas, são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais". Minas Gerais é tão diversa em seu território que, mesmo que a gente consiga traçar o estereótipo do mineiro, ficamos com o alerta mais uma vez: será que existe uma mineiridade tão hegemônica a ponto de fazer o tradicional ser o mesmo em todas as regiões do estado?

A gente acha que não é bem assim. E, por isso, convidamos você a conhecer a Nova Tradicional Família Mineira com a gente. E não, não tiramos o Tradicional do nome. Porque se transformar e se adaptar não quer dizer jogar fora o que veio de outras gerações. Aquilo que valia outrora segue valendo, mas em novas interpretações.

Quem contou tudo isso para a gente?

Para entender melhor sobre a Tradicional Família Mineira, que aparece tão frequentemente na literatura mineira e brasileira, conversamos com o Professor Reinaldo Martiniano Marques, da Faculdade de Letras da UFMG. Por lá leciona Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada. Doutor em Literatura Comparada também pela UFMG, orienta dissertações e teses nas linhas de pesquisa Literatura, História e Memória Cultural e Poéticas da Modernidade.

4. A nova tradicional família mineira

“Evém mineiro. Ele não olha: espia. Não presta atenção: vigia só. Não conversa: confabula. Não combina: conspira. Não se vinga: espera. (...) No mais, é confiar desconfiando. Dois é bom, três é comício. Devagar que eu tenho pressa. (...) Solidário só no câncer? Absolutamente, dona: nas virtudes também, uai. Haja vista a Tradicional Família Mineira, que Deus a tenha”.

Fernando Sabino - Trecho extraído do livro "A Inglesa Deslumbrada". Editora Record - Rio de Janeiro, 1967, p. 71.

Podemos até não gostar de admitir, mas a TFM, retratada em tantos clássicos da nossa literatura, está longe de ser extinta. Suas crenças e valores permeiam a nossa formação e se fazem fortemente presentes no nosso dia a dia – principalmente quando o assunto em pauta é o conceito de família e seus novos formatos. De maneira geral, o que nos parece é que essa tal Nova Tradicional Família Mineira ainda está em processo de construção da sua identidade. E, nessa busca por se reinventar, já começa a encontrar formas de fazer com que os novos paradigmas da vida moderna convivam com as raízes deixadas pelas gerações anteriores.

A Nova TFM é mais aberta. É nova, sem as antigas tradições que "prendiam" todos nos mesmos moldes. O mineiro julga muito, mas hoje já aceita mais o negro, o homossexual. Acho que a nova TFM aceita mais qualquer tipo de relacionamento, está existindo uma maior aceitação. Claro que quando a pessoa conta em casa que é gay ainda tem aquele choque de alguns familiares, mas hoje a questão já é debatida, colocada na mesa, você vê na rua que as pessoas não julgam tanto como antes. Acho que a Nova TFM está abrindo mais a cabeça do mineiro.

Entrevistado(a). Perfil Mães/Pais Solteiros.

A Nova Tradicional Família Mineira é aquela dos seus, os meus, os nossos. Quando você sai da TFM padrão, você quebra tabus e passa a agregar a família do outro. Hoje em dia é muito mais comum ter pais separados com novas famílias do que casamentos de anos. Acho que isso é um retrato da família moderna.

Entrevistado(a). Perfil Família Agregada.

Um raio X da família mineira de hoje

Contexto familiar:

A maioria dos solteiros se encontra em idades entre 25 e 29 anos (45%), seguidos pelas faixas de 20 a 24 anos e 30 a 39 anos, ambas concentrando 20,7% dos respondentes solteiros. Já os casados se encontram principalmente na faixa entre 30 e 39 anos (32,6%), seguidos por aqueles entre 40 e 50 anos (31,6%). A partir dos 30 anos já vemos uma porcentagem maior de casamentos terminados, sendo que a faixa dos 51 ou mais concentra 60% dos divorciados, seguido pela faixa dos 30 ao 39 anos, com 30%. Já nos casos se separação, 50% dos entrevistados separados têm entre 40 e 50 anos, enquanto os outros 50% têm acima de 51 anos.

Liberdade x Matrimônio

83,5%

dos respondentes pretendem se casar. Desses:

O desejo de se casar se concentra principalmente na faixa entre 25 e 29 anos (44,6%), seguidos pela faixa de 30 a 39 anos (22,8%) e pela de 20 a 24 anos (19,8%). Dos que não pretendem se casar, a maior parte tem acima de 51 anos (30%).

Na prática não existe diferença entre ser casado ou ser juntado. Eu não me vejo diferente de uma pessoa casada, a rotina é a mesma. A gente não juntou por ter uma ideologia diferente, por não acreditarmos no casamento. Viemos morar juntos por conveniência e praticidade, pelas circunstâncias do momento mesmo. Eu sinto falta do rito, mas acho que isso é uma imposição da sociedade. Juntar é prático.

Entrevistado(a). Perfil "Juntados".

Meus pais têm esses valores "antigos" da Tradicional Família Mineira, para eles foi difícil aceitar que eu estava saindo de casa para morar junto com meu namorado sem ser casada. Mas pelo fato de eu já ter mais de 30 anos, eles acabaram não tendo opção. Se eu fosse mais nova eles jamais teriam deixado eu sair de casa.

Entrevistado(a). Perfil "Juntados".

Para os mineiros, família é:

O formato ideal

Para a maioria dos nossos entrevistados, parece não existir uma composição correta: família é um sentimento e não uma forma.

57,5%

família é família, independentemente do seu formato.

Não existe formato ideal. Família é o que queremos que seja família.

Não existe formato único. São vários. Toda forma de amor é válida. Família é algo (que vai) muito além do que a sociedade tenta impor como correto – pai, mãe e filhos.

O formato que você quiser, seja composta por um casal heterossexual, homossexual, incluindo filhos ou não, com animais de estimação ou não.

Mas, ainda assim, é possível perceber algumas pequenas divergências entre as respostas:

57,5%

não existe um formato ideal

Família reconstruída, combinada ou recombinada.

Não existe composição correta, família é um sentimento e não uma forma.

23,7%

não existe um formato ideal, desde que haja amor e respeito entre os integrantes

Sem distinção de gênero, raça ou orientação sexual. Não há padrão ideal, desde que haja respeito mútuo entre todos os integrantes e que os filhos possam ter condições adequadas de criação.

Um grupo de pessoas com afeto, carinho e respeito mútuos.

9,5%

o formato ideal é a família unida, independentemente da sua composição

Família unida, independentemente de quem forem os integrantes.

Todos unidos, um ajudando ao outro.

5,5%

o formato ideal é aquele que faça seus integrantes felizes

Qualquer formato que transmita felicidade.

O formato que faça seus membros felizes!

3,1%

o formato ideal é aquele em que haja laços afetivos entre os integrantes, independentemente do parentesco

Onde existem laços, independentemente de parentesco, havendo amor, compreensão, respeito.

Pessoas que lutam em busca de um mesmo objetivo, sabem respeitar as diferenças de crenças e ideias.

27,8%

o formato ideal é a família “tradicional”

O tradicional: pai, mãe e filhos.

3,6%

o formato ideal vai além do núcleo pai, mãe e filhos e considera também parentes de outras gerações, genros e noras e animais de estimação como parte da família

Não existe um formato ideal, contanto que exista amor e carinho, sendo assim, uma família pode ser formada até mesmo por apenas uma pessoa e um animal de estimação.

Parceiros, filhos, avós, primos, tios, genros, noras.

2,7%

o formato ideal está diretamente relacionado à crença religiosa. Para tais entrevistados, é aquela que tem Deus como centro e vive segundo a Sua palavra

A que vive segundo os preceitos de Deus.

A que tem Deus como centro.

Mas, dentre as composições hoje existentes, quais são consideradas “famílias”?

Ou seja:

apesar de muitos mineiros considerarem como família as pessoas que vivem na mesma casa, ainda é preciso, para a maioria, também haver laços sanguíneos ou matrimoniais.

Importante notar ainda que, quando se trata das composições “casal gay sem filhos” e “casal gay com filhos”, os mais jovens – entre 20 e 29 anos – são muito mais favoráveis ao considerá-los família que os mais velhos.

A faixa etária entre 20 e 24 anos é a mais flexível com relação ao conceito de família, sendo a única que considerou “amigos morando junto” como família (70,8%), bem como votando por unanimidade na composição “casal hétero com filhos adotivos ou barriga de aluguel” (100%).

Acho que a família perfeita, com pai, mãe e filhos, é uma imposição da sociedade. Para mim família é um vínculo, um compromisso que as pessoas selam entre elas para poder buscar um objetivo em comum, uma vontade em comum, independente de quem fizer parte. Família é ter esse sentimento de família, independente da formação familiar ou do papel que cada um desempenha. Família passa muito pelo conceito de cuidado.

Entrevistado(a). Perfil "Juntados".

Para ser família:

Pais e filhos

Dos que ainda não são pais:

78,5%

pretendem ter filhos no futuro, sendo 46,3% entre 25 e 29 anos e 28,4% entre 30 e 39 anos

Eu sempre fui muito cobrada pela sociedade para ter filhos. A minha opção de não ter filhos nunca foi muito bem aceita pelos meus amigos, nem pelo resto do mundo, mas lá em casa minha família sempre respeitou minha opção. Quando você escolhe não ter filhos, você vira o diferente, vira um ET para a sociedade. Eu decidi por isso por ser perfeccionista demais, eu não ia dar conta de fazer bem as duas coisas: ser mãe e ser bem sucedida, e acabei optando pela carreira. Meu marido na época em que eu era casada também não queria filhos, então escolhemos seguir assim. Hoje sou "vódrasta" dos netos do meu namorado, e estou achando muito legal. Ao longo do tempo fui adquirindo novas famílias, então apesar de não ter filhos, nem sobrinhos por parte do meu irmão, tenho meus sobrinhos que ganhei por parte do meu ex marido, tenho os filhos do meu namorado, os netos dele. Então acaba sendo um pacote muito bom.

Entrevistado(a). Perfil Família Agregada.

Nossos hábitos de consumo são bem diferentes de uma família tradicional. Por não termos filhos, a gente pode se dar ao luxo de fazer o que a gente quer, a hora que a gente quer. A gente sempre se pauta pela qualidade. Nosso orçamento é destinado principalmente a lazer e produtos gourmet. Nosso estilo de vida é bem livre, e isso define todas as nossas escolhas. Moramos em um apart hotel, que é um tipo de moradia ideal para nosso perfil sem filhos. O prédio oferece todos os serviços, de internet a empregada. Então, não precisamos nos preocupar com nada. É liberdade total mesmo.

Entrevistado(a). Perfil DINKS.

Hábitos da família mineira

Nossos hábitos de consumo são bem diferentes de uma família tradicional. Por não termos filhos, a gente pode se dar ao luxo de fazer o que a gente quer, a hora que a gente quer. A gente sempre se pauta pela qualidade. Nosso orçamento é destinado principalmente a lazer e produtos gourmet. Nosso estilo de vida é bem livre, e isso define todas as nossas escolhas. Moramos em um apart hotel, que é um tipo de moradia ideal para nosso perfil sem filhos. O prédio oferece todos os serviços, de internet a empregada. Então, não precisamos nos preocupar com nada. É liberdade total mesmo.

Entrevistado(a). Perfil DINKS.

5. Novos modelos, novos mercados.

Com a mudança nos arranjos familiares ganhando cada vez mais destaque, o mercado – assim como a mídia – também precisou rever seus conceitos para se ajustar à nova realidade. O movimento aqui no Brasil começou tímido, mas aos poucos as empresas estão buscando se conectar com a “família moderna”.

Qualy

A Qualy, que por anos utilizou o estereótipo da “família perfeita” em sua comunicação, desde 2010 aposta em um novo formato, abolindo a família tradicional e abordando novas configurações familiares, explorando o relacionamento a distância, a relação padrasto/enteado, a avó que mora junto e a realidade da mãe solteira em suas peças publicitárias.

Natura

A Natura é outra empresa que abraçou o conceito de família moderna e desenvolveu campanhas que abordam e celebram todo tipo de estrutura familiar na campanha "Toda relação é um presente".

O Boticário

Quando se trata dos casais homoafetivos, não podemos deixar de mencionar a polêmica em torno da campanha de Dia dos Namorados da marca O Boticário e a onda de boicote a empresas que apoiam a homossexualidade que se desdobrou em seguida. Felizmente, o movimento contrário ganhou ainda mais força, e iniciativas como o “Aproveita e Boicota” mostraram aos mais conservadores que boa parte da indústria é a favor do movimento LGBT, e a cada dia mais empresas têm se pronunciado a favor da diversidade.

DogHero

Cada vez mais os animais de estimação ganham status de membros da família. Com o crescimento de 8% em 2014, o mercado pet tem conquistado mais espaço no orçamento das famílias brasileiras, sendo um nicho com muitas oportunidades a serem exploradas. O DogHero surgiu para atender famílias que, por algum motivo, vão ficar longe de casa e não querem deixar seus animais em hotéis ou canis. Na plataforma, é possível encontrar anfitriões igualmente apaixonados por animais que poderão cuidar do seu cachorro como se fosse o deles.

Representação das famílias nos anúncios

Apesar de começar a existir um movimento das marcas em prol das novas estruturas familiares, no geral, membros dessas famílias ainda não se sentem representados nos anúncios. A revista online Adweek apresentou, em 2012, uma pesquisa sobre a utilização das mídias das famílias modernas e descobriu que:

Apesar da abertura para as mensagens dos produtos, os anúncios não estão se engajando com essas famílias.

A maioria dos anúncios que vejo não mostra famílias como a minha.

Eu não me conecto com anúncios que sempre descrevem a família ideal.

O marketing e as empresas têm que acompanhar o mundo atual. Não adianta retratar e desenvolver produtos pensando só nos formatos familiares de antigamente, isso não conversa com as famílias de hoje.

Entrevistado(a). Perfil Família Multigeracional

Tendências

Se por aqui o mercado ainda está se adaptando e buscando o melhor tom para criar esse elo de confiança com as novas famílias, lá fora o cenário é diferente. Em tempos de liberdade de expressão e de glorificação da individualidade, muitas empresas estrangeiras já captaram a essência das novas estruturas familiares, e a sociedade já ensaia novas maneiras para celebrá-las.

Novas regras do lar

Em uma campanha para enfatizar que cada lar é único, a Ikea Canadense criou o movimento #houserules, incentivando as pessoas a compartilhar as regras que fazem da sua casa o seu lar. A campanha, criada pela agência Leo Burnett e veiculada em 2014, se transformou em um case de sucesso por compreender que cada família faz as suas próprias regras. A partir do resultado da campanha, a empresa desenvolveu estratégias que vão de encontro com a dinâmica das famílias modernas.

Se preparando para ser pai

Nos EUA, a sociedade abraçou a paternidade de tal forma que movimentos como “Dadchelor Party” (uma espécie de chá de bebê para homens e despedida da vida pré-paternidade) e “Dad Clubs” (encontros de pais para discutir assuntos relacionados à criação dos filhos) são cada vez mais frequentes. De olho nesse nicho de mercado, as marcas estão criando formas de se comunicar diretamente com os pais – o ano todo, não só no dia deles.

Pai herói

Ainda  trabalhando a importância do papel paterno, a Dove realizou uma pesquisa com 1.000 pais, entre 25 e 54 anos, e descobriu que 80% acreditam que são responsáveis pelo bem-estar dos seus filhos. Percebendo a mudança da sua função dentro de casa, a marca lançou  a campanha para linha Dove Men+Care pedindo para os papais publicarem nas redes sociais pequenos momentos com seus filhos usando a hashtag #RealDadMoments.

FriendsGiving

Liderado pelos Millennials, outro movimento que tem ganhado espaço lá fora é o FriendsGiving. Comemorado em paralelo ao ThanksGiving, uma data tradicionalmente conhecida por reunir a família, o FriendsGiving tem ganhado mais adeptos por não envolver a “carga de tensão familiar” dos tradicionais jantares, reforçando o conceito de que amigos são a família que escolhemos – e que também merecem ser celebrados. As marcas, principalmente da indústria alimentícia, já começaram a criar campanhas de marketing focando nessa tendência, considerada pelos jovens uma nova tradição.

6. O futuro da família

A unidade familiar está passando por uma tremenda transformação. Reduzindo de tamanho e ficando cada vez mais diversificada, a família não é a mesma do tempo dos nossos avós. As possibilidades parecem infinitas. Mas, apesar das novas composições e novos formatos, o senso de família vai se fortalecendo a cada dia, independentemente da existência de laços sanguíneos. Antes orientada por papéis sociais com diferentes pesos e funções, a família de hoje se parece mais com um time. As tomadas de decisão são mais democráticas e seus integrantes demonstram estar unidos em prol do bem-estar comum.

O reflexo dessas mudanças já é percebido em Minas Gerais. A TFM, antes muito tradicionalista, hoje está mais aberta e receptiva. Os traços conservadores do mineiro permanecem arraigados em muitas esferas da vida, mas já começam a ceder espaço para novos comportamentos. No cenário geral, amor, união e respeito tornam-se mais importantes que qualquer tipo de oficialização para caracterizar uma família.

Comparando a TFM com a Nova TFM, muda tudo. Antes era o pai que mandava, que pagava as contas de casa. Ele tinha essa "obrigação", e se dava satisfeito por isso. A mãe quando trabalhava ganhava pouco, e mesmo trabalhando tinha que dar conta do serviço de casa e dos filhos, era a "obrigação" dela. Hoje a gente vê que a maioria das mulheres sustentam - ou contribuem bastante - com a casa, os filhos ajudam nas tarefas e até nas contas também, os pais ajudam na criação dos filhos. A TFM evoluiu muito: o pai não é só o provedor, a mãe não é só a cuidadora, os papéis não são tão definidos mais. Acho que isso foi o que mais mudou, melhorou bastante.

Entrevistado(a). Perfil Mães/Pais Solteiros.

A Tradicional Família Mineira era machista, era quadrada. Hoje a Nova TFM é mais aberta, mais prática, tem mais igualdade. Não existe mais aquela autoridade do homem, hoje a tomada de decisão está mais dividida, a hierarquia não é tão evidente. A Nova Tradicional Família Mineira não tem tantos empregados como a TFM, as pessoas têm mais autonomia, mudou tudo na divisão de tarefas. A Nova TFM tem um equilíbrio maior entre tarefas, decisões, hierarquia. Os papéis estão mudando dentro de casa.

Entrevistado(a). Perfil "Juntados".

A TFM era extremamente paternalista, hoje o pai não tem tanta autonomia mais. A mulher ganhou mais papel de destaque tanto na sociedade quanto na família. Mas tirando isso, acho que a Nova TFM não avançou tanto. Ela só se fantasia de moderna. No fundo os valores preconceituosos continuam latentes, eles só são expressos de outra maneira. A Nova TFM melhorou com relação ao mundo, mas no fundo ela continua a mesma TFM hipócrita, preconceituosa, e focada no status de sempre. Vamos precisar de muitas gerações e muito acesso à cultura e educação de vida para mudar isso.

Entrevistado(a). Perfil Casal Homoafetivo.

A geração mais nova assume posturas que a gente nunca teve coragem de assumir. Eles escancaram o relacionamento para a sociedade, andam de mão dada, dão beijo em público. A gente não faz isso. Não sei se é um hábito que criamos porque na nossa época não era permitido, então acostumamos a ser discretos, mas realmente acho que não tem necessidade de explicitar nada, nem entre héteros. A nova geração tem uma postura mais escancarada. Mas a Tradicional Família Mineira não aceita ainda essa postura. Acho que a gente é bem aceito no meio que frequentamos por termos essa postura discreta. A TFM nos convida para a casa dela, para os eventos dela, sabe que moramos juntos e somos um casal, mas a impressão que temos é que somos bem aceitos por sermos discretos, respeitarmos os valores deles. Se eu der um beijo no meu marido em uma festa, ou no Minas (Clube), vai ser um auê, eles vão ficar escandalizados.

Entrevistado(a). Perfil Casal Homoafetivo.

A família em 2030

A empresa inglesa de inovação Dragon Rouge imaginou como será a realidade das famílias em 2030, em um estudo que explora a relação das marcas com os novos formatos familiares.

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