Jovens Idosos

A terceira idade está na moda. Mas, se você pensa que cabelos brancos, cadeiras de balanço e bengalas traduzem bem essa tendência, está muito enganado. O aumento da expectativa de vida fez surgir um novo perfil de veteranos: senhores e senhoras ativos, cheios de energia e vontade de viver, que vêm quebrando paradigmas e movimentando o mercado em todo o mundo. Para eles, ser velho está apenas na idade, não na cabeça.

SET.2015

Se aposentar é pior que morrer. Há tantas coisas esperando para serem feitas no mundo.

A frase escolhida para abrir a quinta edição do Atualize-me é de Iris Apfel. Com 93 anos de idade, a empresária, designer de interiores e genuíno ícone da moda norte-americana ganhou espaço sob os holofotes na última década graças a sua autenticidade e ao seu inconfundível estilo colorido. Mas a mesma frase poderia ter sido dita por qualquer um dos jovens idosos mineiros com quem conversamos no último mês.

Deixemos de lado o estereótipo. O envelhecimento da população mundial fez com que, pela primeira vez, o mundo ocidental prestasse atenção e passasse a valorizar toda a "interessância" da turma veterana. Na prática, isso significa dizer que os idosos estão na moda. E que eles, em nada, se assemelham aos senhores e senhoras pouco ativos que permeiam o inconsciente coletivo. O idoso de hoje traz consigo um espírito jovem que exige de pessoas, empresas e marcas uma mudança no olhar.

1. Sessenta e poucos anos

No final do século XX, os livros escolares caracterizavam o Brasil como um "país de jovens" - isto é, uma nação cuja maior parte da população encontrava-se na faixa entre 0 e 14 anos. No entanto, a diminuição tanto da taxa de natalidade quanto da de mortalidade, aliada ao aumento da expectativa de vida, promoveram um salto na pirâmide demográfica. Hoje, somos um país de jovens maduros. Segundo o IBGE, já em 2030 o número de idosos será maior do que o de jovens até 14 anos. Em 2055, maior do que jovens até 29 anos. Estamos a poucas décadas de nos tornarmos um país de idosos.

Os idosos em números

No mundo:

No Brasil:

Nova velha geração

Segundo Maria Alice de Vilhena Toledo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), há uma nova geração de pessoas chegando aos 60 anos. “São idosos capazes de determinar o que fazer e comer, além de como gastar seu dinheiro. Idosos capazes de gerir suas vidas, mesmo que, às vezes, com ajuda. Quando uma pessoa experimenta a terceira idade com tanta autonomia e independência, temos um envelhecimento bem-sucedido”, explica.

Ana Amélia Camarano, em seu livro “Os Novos Idosos Brasileiros - Muito Além dos 60?”, traçou um perfil dessa nova velha geração. São os filhos do baby boom, a numerosa prole nascida entre 1946 e 1962, que já se beneficiou dos grandes avanços da tecnologia médica e cosmetológica, da reposição hormonal e foi influenciada pelo culto à juventude. Independentemente da classe social, esse grupo de idosos apresenta maior disponibilidade para o consumo, principalmente em relação a produtos para a preservação do corpo.

Abaixo ao estereótipo

De acordo com o Censo Americano, até 2050 a população deverá viver até os 120 anos - quase o dobro da expectativa de vida atual. Em um futuro muito próximo, esse será o caso também do Brasil, que deixará de ser um país majoritariamente jovem. A estimativa é de que, dentro de seis anos, haverá 32 milhões de idosos no país.

Devido a todo esse cenário, nunca foi tão difícil caracterizar os representantes da terceira idade. Vamos fazer um exercício simples? Busque pelas palavras “velho” e “idoso” no Google. As primeiras imagens que aparecerão em sua tela serão basicamente essas:

Velho:

Idoso:

Conversamos com vários representantes da terceira idade que vivem em Belo Horizonte e Região Metropolitana. Para eles, e se considerarmos seu estilo de vida atual, os conceitos de “idoso” e “velho” estão longe de ser sinônimos.

Para você, o que é ser idoso?

É ter a juventude prolongada. Eu sempre falo que a idade chegar não significa que a gente deve se entregar. A experiência de vida acumulada pode ser distribuída, partilhada.

Idoso sente mais necessidade de estar em atividade. Tenho uns cunhados que não participam de nada. Os idosos estão sempre buscando qualidade de vida.

Sou idosa pela minha idade. Mas eu tenho a minha vida ativa de ginástica, pilates, trabalho… Eu penso que minha cabeça pensa como jovem.

E o que é ser velho?

Não sou. Não é pejorativo, mas acontece que eu tenho vida.

Gente que se entrega.

Ser velho é ser acomodado, não ter esperança de vida, ser descartável.

Acomodado, parado, gosta de ficar quieto.

A verdade é que os antigos clichês relacionados à terceira idade não se aplicam mais à realidade. Ao que tudo indica, o amanhã parece ser cada vez mais promissor. Temos diante de nós uma população idosa altamente produtiva e ativa, que atingirá a maior idade esbanjando qualidade de vida.

Segundo o estudo Global AgeWatch Index 2015, feito pelo instituto de apoio HelpAge International, o Brasil é o 56º melhor país do mundo para envelhecer. O ranking de 96 países é liderado pela Suíça. O estudo leva em consideração fatores divididos em quatro categorias:

  • Ambiente favorável: satisfação com serviços oferecidos pelo governo, como transporte público e segurança;

  • Segurança de renda: acesso a fontes de renda e nível de pobreza entre idosos;

  • Níveis de saúde: expectativa de vida e bem-estar psicológico e mental;

  • Capacitação: empregabilidade e nível educacional.

O Brasil se sai melhor no quesito segurança de renda: é o 13º da lista, graças ao acesso a pensões e baixa taxa de pobreza na terceira idade. Por outro lado, tem resultados medianos em níveis de saúde e capacitação, e é apenas o 87º no critério ambiente favorável, o que acaba prejudicando a nota geral do país. As maiores insatisfações são em relação à segurança e aos sistemas de transporte.

2. Na flor da idade

Os idosos de hoje nos ensinam, por meio de seus comportamentos e atitudes, que a idade é apenas um detalhe. A verdadeira juventude está no modo de agir e na forma escolhida para encarar a vida.

A demografia está morta. Por muito tempo, a idade esteve amarrada a uma série de expectativas sociais. Mas quando o jovem da geração Boomerang retorna para o ninho vazio e a aposentadoria fica mais distante a cada dia, o vínculo entre idade e expectativas sociais começa a se desfazer. No fim das contas, apelamos para a aptidão tecnológica para separar jovens dos mais velhos  —  apesar de que mães também se viciam em Candy Crush.

A citação é da Box 1824, uma agência especializada em pesquisar tendências de comportamento de consumo. Em seu relatório “Youth Mode” apresentou ao mundo um conceito inovador e diretamente relacionado ao comportamento que pudemos observar durante nossa pesquisa: a juventude não-etária.

Estar em Youth Mode não significa reviver perpetuamente sua própria juventude, e sim estar presente e jovem em qualquer idade. Juventude não é um processo, envelhecer é. Em Youth Mode, você é infinito.

Age of Happiness

O fotógrafo Vladimir Yakovlev é responsável pelo projeto “Age Of Happiness” (“Idade da Felicidade”, em tradução livre), no qual documenta pessoas com seus 70, 80 ou até 100 anos de idade inteiramente ativos e seguindo seus sonhos.

É o caso de Lloyd Kahn, skatista que decidiu aprender o esporte aos 65.

3. Jovens idosos

De acordo com dados do IBGE, em cinco anos (2008 - 2013), dobrou o número de pessoas com mais de 65 anos que acessam a internet: o percentual passou de 5,7% para 12,6%, um aumento de 120%. Também impressiona o tempo de uso do computador domiciliar entre a terceira idade, que já ultrapassa a média individual dos jovens. Em pesquisa realizada pela Nielsen Ibope em outubro de 2013, o grupo que reúne indivíduos entre 55 e 64 anos representa atualmente 8,1% do total de 46,7 milhões de usuários ativos domiciliares. E atenção: eles já dedicam nada mais nada menos do que 53 horas e 12 minutos por mês às atividades relacionadas ao computador.

Para a realização da fase quantitativa de nosso estudo, conversamos com alguns desses idosos antenados e conectados por meio de uma pesquisa on-line. Os principais resultados serão apresentados a seguir.

Velho x Idoso

49%

consideram que uma pessoa velha é uma pessoa experiente/madura.

40%

consideram que ser idoso é uma pessoa com idade cronológica avançada (mais de 60 anos).

Autoimagem

Tempo livre

Uma “velha geração” conectada

Fontes (digitais) de informação

É ter a juventude prolongada. Eu sempre falo que a idade chegar não significa que a gente deve se entregar. A experiência de vida acumulada pode ser distribuída, partilhada.

Idoso sente mais necessidade de estar em atividade. Tenho uns cunhados que não participam de nada. Os idosos estão sempre buscando qualidade de vida.

Sou idosa pela minha idade. Mas eu tenho a minha vida ativa de ginástica, pilates, trabalho… Eu penso que minha cabeça pensa como jovem.

Futuro

4. A beleza da velhice

Já ouviu falar do #grannyhair? A tendência desembarcou de forma tímida no Brasil, mas é só procurar pela hashtag para encontrar centenas de jovens espalhadas pelo mundo que adotaram os cabelos cinzas.

Mas como assim? As mulheres sempre foram incentivadas a esconder seus fios brancos e cinzas para prolongar uma aparência jovem. Cabelos grisalhos eram vistos como sinal de desleixo, de que a idade “realmente tinha chegado”. O granny hair, então, é o principal sinal de que esse estereótipo está sendo questionado. Possuir cabelos brancos está na moda. Mas se engana quem pensa que esta é uma moda surgida entre as jovens fashionistas, ao contrário. Basta olhar para as celebridades que, nos últimos anos, fizeram o “impensável” e assumiram os grisalhos. Diane Keaton, Jamie Lee Curtis, Glenn Close. Todas com mais de 60 anos, cabelos grisalhos e lindas. Helen Mirren, com suas madeixas brancas aos 70 anos, aparece em diversas listas das mulheres mais bonitas de Hollywood. A ditadura da tintura está, definitivamente, ameaçada.

O que estamos vendo, na verdade, é uma mudança na relação entre idade e vaidade. Os famigerados “sinais dos tempos” estão ganhando um novo prestígio, enquanto alguns procedimentos de rejuvenescimento estético estão na berlinda.

As marcas e os idosos

Em entrevista ao portal UOL Beleza, a estilista de culinária Tanya Volpe Spindel explica porque deixou de pintar os cabelos: "Cansei de tentar acertar a cor antiga e ficar tudo cada vez mais falso."

Autenticidade é a palavra da vez. Atentas a esse movimento, as marcas, preocupadas em mostrar pessoas reais, estão passando a valorizar as características de cada um – rugas incluídas. A moda, que sempre valorizou a juventude cronológica, está se inspirando cada vez mais em modelos maduras, colocando em xeque as “regras” da beleza contemporânea.

Os jovens idosos são pessoas vibrantes, empoderadas, viajadas, úteis para a sociedade, têm um estilo de vida único e superativo. As marcas que desejam se relacionar com esse público, portanto, devem ser tão ativas e inspiradoras quanto. Afinal, ninguém quer ser identificado com o estereótipo do “velho caquético”.

A gente tem que ter um senso muito grande na hora de comprar as roupas [para o estoque da loja]. Tem que prestar atenção, porque, se você trouxer vestidos que elas consideram de velhoquinha, elas não querem. Vai ficar tudo encalhado.

Idaides Vieira, 73 anos, empreendedora

No entanto, a realidade do relacionamento entre as marcas e o público idoso ainda não é a ideal. Segundo os resultados da nossa pesquisa quantitativa:

58%

afirmaram que as marcas, atualmente, não conversam com eles.

57%

acreditam que essa relação não existe porque as propagandas mostram apenas pessoas jovens.

Advanced Style

5. Além da aposentadoria

Já vimos que vamos viver mais. Assim, teremos mais tempo para desenvolver novas maneiras de se relacionar tanto com o que fazemos quanto com quem vivemos.

Sempre ativos

Recentemente, o Brasil alterou o cálculo da idade mínima para a aposentadoria, justamente para acompanhar o aumento da expectativa de vida da população. A nova fórmula, que usa uma cálculo progressivo que combina idade, tempo de contribuição e o ano pretendido para se aposentar, é semelhante ao modelo de diversos países europeus. Porém, continuar trabalhando, mais do que uma necessidade para muitos, está se tornando cada vez mais uma vontade para todos.

É possível aproveitar a vida ao mesmo tempo em que se contribui para a economia. A busca de praticamente todas as pessoas que trabalham no mundo é ainda mais acentuada no caso dessa nova geração de idosos. Com mais tempo, o desafio é repensar a maneira como se

vive a aposentadoria. Seguir a mesma carreira ou perseguir objetivos completamente novos? Se possível, trabalhar apenas meio horário? Investir em um hobby? As possibilidade são muitas.

Os jovens idosos entrevistados para este Atualize-me são ótimos exemplos de pessoas que não pararam após a aposentadoria. Capitão Senra é o fundador do clube Águias de Aço, para apaixonados por motos Harley-Davidson. Rosinha, como ela mesma diz, “passou a tomar conta de uma pequena empresa”, ao assumir todas as atividades de manutenção da casa. Idaides viaja mensalmente para renovar o estoque de sua loja de roupas. A fotógrafa Rosário Guerra, de 75 anos, quer investir cada vez mais em trabalhos autorais:“Eu não pretendo parar, nunca, de fotografar.

CoolWorks Older & Bolder

Se você se considera Older & Bolder, (Velho & Corajoso, em tradução livre) está aposentado ou planejando se aposentar e está procurando por um emprego temporário em algum lugar incrível, os seguintes empregadores estão interessados em você. Tenha em mente que cada trabalho tem diferentes acomodações. Alguns oferecem quartos privativos, já outros possuem locais para serem locados próximo ao trabalho. Você está preparado para não parar de trabalhar?

Anúncio do site CoolWorks

O CoolWorks é um site para anúncio de trabalhos temporários. Percebendo o crescimento da população idosa ativa, desenvolveu um serviço voltado apenas para esse perfil.

Retired Brains

Eu pensava, o que fazer? Eu não poderia imaginar em não ter algo pra fazer.” Foi assim que Art Koff, 79 anos, fundou o site Retired Brains. O site anuncia vagas de trabalho para aposentados que desejam continuar trabalhando. São diversas as possibilidades, desde acompanhante para viagens, motoristas para vendedores de carros até gerente de carros de golf.

Eu estou trabalhando 50 horas por semana, mas eu realmente estou gostando do que estou fazendo.

Art Koff, 79 anos, publicitário aposentado e fundador do site Retired Brains

House Sitting

Cuidar da casa de alguém também pode ser uma alternativa. Chamados de housesitters, essas pessoas cuidam de residências e outras propriedades de pessoas que frequentemente estão fora de casa. Outra situação comum nesse tipo de trabalho é no caso de falecimento de uma pessoa que deixa uma propriedade para algum parente que mora longe. Assim o beneficiário precisa de alguém que tome conta da casa por algum tempo.

No Brasil…

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, a participação dos idosos no grupo de brasileiros ativos no mercado de trabalho aumentou 35,8% na última década. A atividade mais exercida por eles é a agrícola, seguida pelo comércio.

Doce lar

Além do universo do trabalho, os formatos de moradia também apresentam um desafio para a população em envelhecimento. Morar sozinho pode ser complicado para algumas pessoas, enquanto morar com a família pode apresentar uma série de outras questões – ainda mais considerando que a maior parte dos idosos não deseja se tornar “um peso” na vida dos familiares. Não existe, atualmente, um meio termo entre a casa própria e um asilo. Mas quem sabe no futuro?

Na pesquisa Housing America’s Older Adults: Meeting the Needs of an Aging Population realizada pela universidade de Harvard, foram destacados três problemas que os idosos enfrentam atualmente:

  • 01

    O custo de aluguel e manter uma casa própria é alto, sem sinais de melhoria num futuro próximo. Idosos de baixa renda frequentemente precisam escolher entre pagar habitação ou alimentação e cuidados com a saúde;

  • 02

    Mesmo dizendo que querem envelhecer em um local tranquilo, muitos idosos estão vivendo em locais pouco adequados. O problema é que a maioria vive fora do eixo central ou em áreas rurais, com transporte público limitado e dependendo de carros próprios. Quando envelhecemos, nos tornamos menos aptos a dirigir, principalmente em ruas muito movimentadas e à noite, e cerca de 24% dos idosos com mais de 80 anos não são cuidadosos no trânsito. Isso significa que os idosos acabam ficando dependentes de alguém ou isolados em suas casas;

  • 03

    A maioria das casas não são projetadas para idosos com problemas físicos. Muitas dessas residências não têm os itens básicos para a acessibilidade de um idoso. Apenas 1% das casas nos Estados Unidos possuem itens como: entradas sem escadas, salas com apenas um nível, portas e corredores mais largos, controles elétricos acessíveis, maçanetas maiores para facilitar a pega.

O mesmo estudo listou uma série de exigências para a construção de uma casa na qual seja possível uma mesma família morar e envelhecer:

  • uma porta de acesso secundária sem escadas;

  • pias e armários posicionados a uma altura entre 80 e 90 cm, com o objetivo de atender desde crianças a idosos e pessoas de diferentes idades em cadeira de rodas. O banheiro também deve ser instalado em um local amplo, para facilitar o acesso;

  • barras de apoio e um assento na área do chuveiro;

  • um quarto que também pode ser um home office, no primeiro andar;

  • piso preferencialmente de pedra ou madeira para facilitar a mobilidade de qualquer pessoa, fazendo uso de cadeira de rodas ou não;

  • garagem com espaço suficiente para que as pessoas saiam do carro confortavelmente;

  • escadas com corrimãos em ambos os lados.

O meu sonho é abrir uma casa que teria espaço físico com piscina, academia, biblioteca, sala de TV, sala de repouso. De manhã, teria uma van para buscar os idosos em casa para fazer as atividades e à tarde deixaria em casa. O dia às vezes se torna o estorvo na vida das pessoas. Então abrir um lugar moderno, atual, inovador para que os idosos passem o dia. Uma idosolândia. Ali seria um trabalho lúdico, que integraria todo mundo, teria amizade, é esse meu sonho.

Anelice, fisioterapeuta, especializada em geriatria, trabalha na Associação dos aposentados da Cemig desde 2009

6. De volta à escola

Se estamos vendo uma geração que quer se manter ativa e aprender tudo que tem direito, é de se esperar que os cursos ofertados por instituições de ensino tenham um aumento de demanda por parte da população sênior. De acordo com dados do Serasa Experian, em 2014, mais de 15,5 mil pessoas com mais de 60 anos se inscreveu no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). E esse aumento tem sido progressivo. Há cinco anos, o número de inscritos nessa faixa etária era 70% menor.

De olho nessa tendência, a UERJ, por exemplo, já conta com o projeto Universidade Aberta da Terceira Idade. Segundo o geriatra e diretor-geral, são 3 mil idosos inscritos, em 120 cursos, sendo que um dos mais procurados é o de informática e que o público teme muito a digitação. "Eles querem aprender e temos visto que a computação, que já foi vista como impossível, não é mais. Eles estão vendo que são capazes e podem se comunicar com o mundo", completa Veras.

A partir de 50 anos você pode entrar na Faculdade. Aí tem todas as matérias. Exercício físico e informática é obrigado a fazer. Dança tem todas que você possa imaginar.  Eu faço aerodance e zumba. Tem culinária, informática, oficina da memória... A gente tem que se atualizar. Temas da vida é um curso maravilhoso que tem lá, que a gente conta sobre a vida, escuta sobre o que se passou. Teve um dia que a professora perguntou o que era o mais importante da sua vida, aí a gente aprendeu muito com as histórias dos outros.

Nely, 78 anos

Meu grupo da escola é muito legal, só gente com a cabeça boa. Conviver com as pessoas ajuda muito. Você tem que ter a vida ativa, eu tenho a vida superativa, isso que faz a diferença com relação a pessoas da mesma idade.

Nely, 78 anos

Esse perfil conectado se reflete nos dados do Ibope em relação ao uso de internet por parte dos idosos. Em janeiro de 2013 eles representavam 1,95% do total de 94 milhões de internautas brasileiros. Pode parecer pouco, mas, se comparado com os números de 2011, é um crescimento de 39,3%. Segundo Veras, é uma nova tendência: "Existe cada vez mais a preocupação dessa turma em aprender e estar atualizado."

Busca por (novos) conhecimentos

53%

dizem ter feito um curso recentemente.

36%

dos cursos são de especialização.

90%

afirmaram que se interessariam em fazer um curso que fosse prático em suas vidas.

Só ser mulher, dona de casa e mãe não me realizou, eu precisava do meu lado profissional.

Rosário Guerra, 75 anos, casada, três filhos, e foi ser fotógrafa profissional aos 60 anos

O Serviço Social do Comércio de Minas Gerais (Sesc Minas) também percebeu a demanda crescente por parte dos idosos e formatou um curso de informática específico para os maiores de 65 anos. Segundo Érica Freitas, pedagoga e superintendente de educação do Sesc/MG, a grade foi atualizada com a inclusão de redes sociais, ferramentas de busca e pesquisa e outros pedidos das turmas. "A única diferença é o tempo de aprendizado. No entanto, os idosos estão atentos e querem aprender a usar as tecnologias para se comunicarem", completa Freitas, que já ressalta que a procura é tão grande que o curso já tem lista de espera.

É possível perceber dois grandes grupos de idosos no Brasil, segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia/MG, Rodrigo Ribeiro dos Santos: os que usam as novas tecnologias e os que têm preconceito. Como não querem usar e aprender, ficam completamente à margem de muitas novidades. Rodrigo ainda diz que o aprendizado da tecnologia é procurado para reduzir o isolamento social e aí, uma vez familiarizados, os idosos encontram as inúmeras possibilidades de lazer e distração. Além disso, as atividades sociais são boas para a manutenção do bom funcionamento cerebral.

"O medo do Alzheimer tem feito com que muitas pessoas estimulem suas funções cerebrais com essas tecnologias", é o que afirma Rodrigo, que ainda ressalta que antigamente as palavras cruzadas e os jogos de cartas eram os exercícios mais procurados para a memória. No entanto, sozinhos não funcionam. São necessárias atividades variadas, por isso a tecnologia ganha uma importância tão grande.

7. Tecnologia em favor dos idosos

Já não faltam exemplos de como a tecnologia pode ser útil na vida dos idosos. E essa utilidade está nos mais diferentes aspectos: para a manutenção da memória, para a comunicação, para a saúde e até segurança.

Tempo, by CarePredict

Muitas vezes os idosos se sentem um peso na vida dos seus filhos. Estes querem dar o máximo de atenção aos seus pais, mas nem sempre sabem como fazer isso de forma não muito invasiva. Para solucionar esse problema, surgiu o Tempo, um sensor para o monitoramento de idosos. Usado como uma pulseira, mantém os idosos seguros e alerta ao aparecerem os primeiros sinais de problemas de saúde.

Speaking Exchange

A CNA, escola de idiomas brasileira, desenvolveu uma plataforma que une a necessidade de conversação de quem está aprendendo a falar inglês com a tentativa de tirar os idosos do isolamento, colocando-os pra conversar com estrangeiros que estão aprendendo uma segunda língua. Usando tecnologias de videochamada, os Estados Unidos e o Brasil são unidos rapidamente com o Speaking Exchange e a comunicação é realmente sem fronteiras.

BeClose

Viver a vida com independência e da forma como quiserem é um direito dos idosos e, muitas vezes, um cuidador em tempo integral e a interferência contínua da família acabam fazendo com que essa independência seja reduzida. Para ajudar os idosos a viverem a vida que querem viver, a BeClose desenvolveu uma tecnologia com sensores que acompanham a rotina do usuário sem a necessidade da instalação de câmeras, mantendo a privacidade. Os sensores podem identificar se o idoso ficou mais tempo que o normal na cama, se pulou uma refeição ou até mesmo se ele caiu.

Brain Age

O game desenvolvido pela Nintendo tem a proposta de determinar a idade da mente do jogador. São vários desafios lógicos para "rejuvenescer o cérebro". Quando usado pela primeira vez, Brain Age faz uma série de testes e classifica a idade do cérebro dentro da janela de 20 a 80 anos. Mas essa idade não tem nada a ver com a cronológica e o objetivo é chegar o mais próximo de 20 anos.

8. Apenas uma questão de perspectiva

São tantas novidades para que os idosos se mantenham ativos e jovens que as noções de idade e velhice estão se modificando. O estereótipo debilitado, com movimentos restritos e atividades rotineiras está dando lugar para pessoas vibrantes, empoderadas, viajadas, com vida social ativa e que são úteis para eles mesmo e para a sociedade.

Essa mudança também tem que chegar até a comunicação, principalmente para as marcas que querem criar campanhas que conversem com esse público, muitas vezes mal compreendido.

Envelhecer sem Vergonha

A farmacêutica Pfizer lançou uma campanha institucional que questiona de forma bem-humorada os principais temas da terceira idade. Será que qualidade de vida tem idade? Ao que parece, a velhice é apenas uma questão de perspectiva.

Wisdom

Você já tinha imaginado uma campanha do mercado automobilístico com idosos de mais de 100 anos? Pois é, a Dodge, comemorando os seus 100 anos de idade, convidou americanos de idade avançada e mente jovem para dar conselhos sobre como viver a vida plenamente.

Envelhescência

O cinema também já se apropriou do tema e o documentário Envelhescência mostra como a longevidade está sendo aproveitada por várias pessoas cronologicamente idosas. Segundo Gabriel Martinez, diretor do filme, o que ele mostra é a "transformação da vivência da velhice em uma experiência que subverte as noções anteriores de declínio e degeneração, e apontam para uma relação criativa do envelhecer e da reconstrução da história pessoal por meio de novas experiências".

Lab 60+

A mudança é tão grande que um evento especial focado na apresentação de projetos, pesquisas e iniciativas que desvendam a nova face da terceira idade foi criado. O Lab 60+ já teve uma primeira edição e várias palestras estão disponíveis no site do evento. Entre elas, estão a do próprio Gabriel, diretor do Envelhescências, e também a do Max Petrucci, um dos criadores do projeto A Nova Cara da Terceira Idade.

O movimento A Nova Cara da Terceira Idade surgiu para redefinir o símbolo utilizado para representar a população sênior, em 2013. O projeto gerou frutos e o símbolo já começou a ser adotado em vários estabelecimentos, principalmente na cidade de São Paulo.

Esse público começa a chamar cada vez mais a atenção das marcas, pois é uma força econômica que tem dinheiro, tem vontade de gastar e nem sempre é bem atendido pelos produtos e serviços existentes no mercado. O jovem idoso sabe que não é cronologicamente jovem, mas não gosta de ser chamado de velho. É antenado, interessado e busca entender o que está consumindo. Querem encontrar qualidade e algo que facilite o conforto que busca na vida. Sua marca está preparada para esse público?

9. E o futuro?

Uma coisa não mudou: um conselho vindo de um idoso vale muito. Nada melhor do que alguém com muitas experiências para nos contar o que é que a gente devia fazer na nossa vida, como chegar aonde eles chegaram tão bem quanto eles. Nossos entrevistados deixaram recados superespeciais para você pensar no seu futuro:

O jovem hoje não está vivendo como deveria. Não acho que aproveita a vida. A gente brincava muito, se divertia na rua, hoje eles não fazem isso mais. Estão preocupados só com a tecnologia, mas ficam parados. Não têm atividades e perdem com isso. Vivam mais e melhor. Aproveitem a vida!

Vani, 65 anos

Seja ativo, participante. Faça um investimento na sua qualidade de vida para que seja um idoso ativo também.

Jésus, 75 anos

Ciúme tá fora de moda. Cuida de você bastante, aproveita sua vida. Trabalhar, ser independente. Cuida da saúde, faz exercício físico, vai passear. Viva hoje! Amanhã você não sabe.

Nely, 78 anos

Sempre realize seus sonhos. Vá atrás mesmo, sem parar. Não tem uma felicidade só. Você tem que ter muitas. Você não pode focar sua vida em uma pessoa, em uma viagem, em uma amiga.

Rosário, 75 anos

Cuidado para não invadir ninguém. Você não pode sair do seu quadrado por causa da individualidade.

Rosinha, 81 anos

O jovem tem que aprender com a gente, mas ultrapassar a gente.

Capitão Senra, 83 anos

Não se arrepender, ter uma vida ativa, realizar seus sonhos, ser independente. Os conselhos dos nossos jovens idosos são muito similares, o que reforça sua veracidade e valor. E você? O que anda fazendo para aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer?

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