Era da Impaciência

A nossa relação com o tempo mudou de forma brusca nos últimos anos. Misteriosamente, ele se tornou mais curto e tem passado cada vez mais rápido. Olhe ao seu redor. A internet e as novas tecnologias parecem ter contribuído ainda mais para essa realidade e nos ensinaram que não precisamos mais esperar. O resultado? Somos pessoas ansiosas. Mas quais são os reflexos de tanta pressa? Será possível encontrar um ponto de equilíbrio em uma era dominada pela impaciência?

OUT.2015

1. Estamos todos impacientes

Como tudo se tornou mais rápido, nos acostumamos com isso, não conseguimos mais esperar pelas coisas. Esperar por qualquer coisa é um sofrimento e isso gera ansiedade.

Valéria Brandini, antropóloga

Em 1951, Sir Hugh Beaver, diretor-administrativo da cervejaria irlandesa Guinness, entrou em uma discussão sobre qual era a ave de caça mais rápida do mundo. Sem conseguir chegar a um consenso, Beaver imaginou quantas discussões do tipo eram travadas todas as noites nas mesas dos bares e teve uma ideia: um livro que reunisse respostas para todas essas questões. Foi assim que surgiu o Livro Guinness dos Recordes.

Já parou para pensar que essa história nunca seria possível nos dias de hoje? Qual foi a última vez que você teve uma discussão acalorada sobre um assunto que ninguém tinha certeza da resposta em uma mesa de bar? Com certeza, na hora da indecisão, alguém rapidamente pegou o celular e jogou o assunto no Google, para ter a resposta certa num piscar de olhos.

O escritor José Saramago escreveu duas frases que se encaixaram direitinho nesse novo estudo do Atualize-me. A primeira a gente vai te contar agora:

De repente, o futuro se tornou curto.

Houve uma mudança no inconsciente coletivo no que diz respeito ao tempo. Ele ficou curto, passa rápido demais. E é por isso que não queremos demora. Estamos cada vez mais ansiosos e impacientes. Da mesma forma como a internet aumentou o acesso à informação de forma instantânea, ela reduziu a nossa paciência para esperar.

A segunda frase de Saramago estará só lá no final – você terá que investir um pouquinho do seu valioso tempo para chegar até lá. Mas fique tranquilo, que valerá a pena.

Por que tanta impaciência?

A sensação de não saber, hoje, gera um sentimento de exclusão e não pertencimento que é quase insuportável. E, claro, tem outro problema: a grama do vizinho é de um verde incrível quando a gente só a vê pela internet, não é mesmo? Se não é você que está postando aquela foto em um lugar especial, já dá aquele apertinho no coração. Esse é o conceito de FOMO (Fear Of Missing Out, ou medo de ficar de fora, em bom português).

O termo FOMO, que em 2013 foi adicionado ao dicionário de Oxford, foi cunhado em 1996 pelo Dr. Dan Ariely, professor de Psicologia e Comportamento Econômico da Duke University. Hoje já sabemos o quanto é difícil desconectar. Pior: o quanto é difícil não conferir uma atualização marcada com uma notificação vermelha na tela do celular. E assim estamos cada vez mais impacientes.

A internet é um grande símbolo do nosso espírito do tempo e é tão consumida quanto música, arte, comida, seja o que for. Para os nativos digitais, é uma 

extensão do corpo. Valéria Brandini, uma das especialistas entrevistadas para este Atualize-me, chama esse grupo de Geração Cabeça Baixa. É infalível: seja em um restaurante, em uma reunião de negócios ou na sala de aula, o telefone é verificado constantemente. É uma parte do corpo que precisa ser checada. E não vamos nem falar daquele sentimento de vazio no peito quando colocamos a mão no bolso que geralmente carrega o celular e percebemos que ele não está lá.

Mas a verdade é que algumas tarefas realmente tiveram seu tempo muito encurtado por conta da tecnologia e da possibilidade de se conectar a qualquer momento. E aí o tempo extra tem que ser ocupado de alguma forma.

Uma pesquisa recente da USP identificou que 20% dos usuários de smartphones são viciados em internet. Outra pesquisa, do IBOPE, aponta que 95% dos jovens entre 15 e 33 anos se consideram viciados em tecnologia.

Em 100 anos, o mundo mudou mais que em 1.000. É como se o aparelhamento biológico e cognitivo não estivesse nem preparado para a mudança, para a nova dinâmica. Tivemos que nos adaptar, mas tudo aconteceu mais rápido que nossa cabeça estava preparada para aguentar. Você começa a ver as pessoas cada vez mais doentes. O corpo é o meio onde se expressa o problema dessa incongruência de se ter uma dinâmica de temporalidade e abrangência maior e mais rápida que se está acostumado.

Valéria Brandini, antropóloga

2. A impaciência em números

Há quanto tempo você não demora mais de uma semana para receber a resposta de um e-mail? E quando isso acontece, você pensa que demorou muito, não é mesmo? Uma empresa britânica chamada KANA também fez essa pergunta.

Realizamos uma pesquisa em Belo Horizonte para entender se os mineiros também percebem a tecnologia como uma extensão do seu corpo. E aí, nesse caso, não ficamos nada surpresos ao descobrir que 100% dos entrevistados são adeptos de gadgets eletrônicos.

Gadgets mais utilizados:

Aplicativos mais utilizados:

O acesso à internet é mais frequente:

Tempo de conexão:

Mineiras mais conectadas:

61,7% não conseguem se imaginar sem o celular, pois:

63,5%

Consideram que é uma ferramenta rápida para conseguir o que desejam

52,7%

Não conseguem ficar muito tempo sem checar as novidades

4,6%

Sentem a necessidade de acessar suas redes sociais constantemente

A culpa é da notificação:

O modo silencioso tem vez?

3. Os efeitos da tecnologia na mente

Ao longo dos últimos anos, eu tive uma sensação desconfortável de que alguém, ou algo, mexeu com o meu cérebro, remapeou os circuitos neurais e reprogramou a minha memória.

Nicholas Carr, autor de The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains

Há menos de duas décadas, imaginava-se que o cérebro humano funcionava como um computador. Nada mais que uma máquina com circuitos fixos em que a única possibilidade de mudança era a inclusão de novas informações. Hoje, e para a alegria da ciência, a história é bem diferente.

Segundo estudiosos, o cérebro humano é, na verdade, maleável e capaz de se adaptar a diferentes situações. Isso possibilita que ele se reinvente, criando novos caminhos, novas conexões e novas funções a partir de cada nova habilidade adquirida, das experiências que acumulamos a cada dia e das memórias que criamos. O fenômeno é chamado de Neuroplastia e, quando combinado com todas as inovações tecnológicas que temos vivido, gera impactos definitivos na forma como pensamos, sentimos e até sonhamos.

É fácil obter pistas dessa elasticidade cerebral. Tomemos como exemplo a evolução dos meios de comunicação e seu impacto em nossas vidas. Houve uma época em que existia apenas o telefone residencial e o telefone comercial. Para se entrar em contato com alguém, era preciso esperar tal pessoa chegar ao trabalho ou voltar para casa. Hoje, as possibilidades são imensas: pode-se ir de um e-mail a uma mensagem no WhatsApp, passando também pelo Facebook e tantas outras redes disponíveis com um clique. Na prática, pode até ter levado algum tempo, mas com certeza o seu cérebro já se acostumou com essa nova gama de opções existentes e convive muito bem com todas elas. Em muitas situações, o difícil é pensar em como seria viver de outra maneira.

Mas qual é o verdadeiro impacto de toda essa inovação em nossa saúde? Como o nosso cérebro tem recebido e se adaptado a tanta novidade? Quais são as consequências reais de tantas mudanças?

Na prática, o assunto é polêmico e pontos de vista bastante distintos precisam ser considerados. Especialistas em cognição têm elogiado os efeitos da tecnologia sobre o cérebro, exaltando a sua capacidade de organizar nossas vidas e libertar nossas mentes para um pensamento mais denso, mais profundo. Outros temem que a tecnologia paralise nossas extensões de atenção e nos faça ficar sem criatividade e impacientes quando se trata de algo essencialmente analógico.

Embora os efeitos cognitivos da utilização em excesso da tecnologia ainda não sejam um consenso, os efeitos físicos da quantidade de tempo que vem sendo dedicada em frente a uma tela são reais. Na China, esse tipo de dependência já é reconhecido como um distúrbio.

Quer saber mais sobre internet addiction?

O Manual de Distúrbios de Saúde Mental está prestes a incluir em sua listagem o Distúrbio de Uso da Internet (Internet Use Disorder – IUD). A Associação Americana de Psiquiatria diz que pessoas que apresentam um quadro de IUD têm mudanças no cérebro que alteram as conexões entre células nas áreas responsáveis pela atenção, controle executivo e emocional. E, para a nossa surpresa, algumas dessas mudanças são as mesmas que ocorrem com pessoas viciadas em cocaína, heroína e outras substâncias.

Outros estudos também mostram que os viciados em internet têm mudanças no funcionamento do sistema de dopamina, a substância responsável pelas sensações de prazer e recompensa no nosso organismo. Para alguns desses viciados, o número de receptores de dopamina é menor em algumas partes do cérebro.

Conheça alguns dos sinais que indicam que nossos cérebros realmente mudaram com o avanço da tecnologia:

O que a internet está fazendo com o nosso cérebro?

4. Infância conectada

As crianças estão conectadas cada vez mais cedo. Não é raro ver os pequenos deslizando os dedinhos sobre os smartphones e tablets, explorando intuitivamente os aplicativos e sem grandes dificuldades. A princípio, essa esperteza pode parecer mágica, mas de onde veio todo esse conhecimento tecnológico?

O que acontece é que estamos presenciando o crescimento das primeiras gerações que nasceram em um mundo completamente conectado. Para essas crianças e adolescentes, tecnologia e conectividade são aspectos normais da vida e nem um pouco revolucionários – afinal, estiveram presentes desde o seu primeiro momento de vida. Todas as evoluções tecnológicas funcionam assim: ninguém mais para pra pensar na revolução que foi a criação do rádio, mas se você perguntasse para o seu bisavô, escutar alguém através de uma caixa falante era um absurdo.

Nos Estados Unidos, crianças de 8 a 10 anos já gastam em média 8 horas por dia com diferentes tipos de mídia. Na adolescência, esse número é ainda maior, passando das 11 horas, segundo a pesquisa "Crianças, Adolescentes e a Mídia", realizada em 2013 pela American Academy of Pediatrics.

O estudo ainda mostra que poucos pais possuem regras definidas sobre o uso das mídias utilizadas pelas crianças, já que, impacientes e com um tempo curto até mesmo para eles próprios, acabam se tornando reféns da tecnologia para acalmar seus filhos e ganhar uma folga.

As crianças aprendem rápido o que se faz ao redor dela. E com a tecnologia não é diferente. Elas são um reflexo do que estão recebendo. Se estamos em uma geração muito conectada e ansiosa, acabamos gerando crianças também ansiosas. Não adianta o pai falar para o filho sair do iPad se ele usa o celular o dia todo.

Raphaela Simões, terapeuta

Geração Alpha

O estudo ainda mostra que poucos pais possuem regras definidas sobre o uso das mídias utilizadas pelas crianças, já que, impacientes e com um tempo curto até mesmo para eles próprios, acabam se tornando reféns da tecnologia para acalmar seus filhos e ganhar uma folga.

Cris Rowan, psicóloga infantil com estudos voltados para o uso da tecnologia na infância, apontou diversos problemas causados pelos eletrônicos em crianças de até 12 anos:

  • Desenvolvimento cerebral

    Até completar dois anos, uma criança tem seu órgão triplicado em tamanho. A superexposição a eletrônicos nesse período pode causar deficit de atenção, atrasos cognitivos, distúrbios de aprendizado, aumento de impulsividade e diminuição da habilidade de regulação própria das emoções.

  • Obesidade

    Estima-se que crianças com aparelhos eletrônicos no próprio quarto têm 30% mais chance de serem obesas do que outras.

  • Problemas relacionados ao sono

    Muitas crianças deixam de dormir para jogar, navegar ou conversar nos aparelhos. Além das consequências psicológicas, a falta de sono noturno pode gerar problemas de crescimento.

  • Problemas emocionais

    Depressão infantil, ansiedade, autismo, transtorno bipolar, psicose e comportamento problemático são exemplos de distúrbios que podem aparecer devido ao uso desenfreado dos eletrônicos.

  • Emissão de radiação

    Pesquisadores canadenses acreditam que a radiação dos celulares deveria ser considerada como “provavelmente cancerígena” para crianças.

  • Falta de concentração

    Conteúdos multimídia em alta velocidade podem contribuir para aumento do deficit de atenção, problemas de concentração e de memória.

E a famosa Ritalina?

Apesar de muito diferentes entre si, crianças de qualquer geração apresentam algumas características que são inerentes à sua idade. Impaciência e falta de atenção para atividades não tão interessantes são algumas delas. No entanto, nos últimos anos, o aumento no número de diagnósticos do Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem chamado atenção de especialistas. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil já é o segundo mercado mundial em consumo do metilfenidato. Somente em 2010, foram cerca de 2.000.000 de caixas vendidas – um crescimento de consumo de 775% na última década. Afinal, será que as nossas crianças precisam mesmo de tanta Ritalina?

Mas tenham calma. Será que não há nenhum lado bom nessa história toda? Com certeza! Crianças conectadas aprendem habilidades específicas promovidas por essa conexão, de acordo com a tese de Wim Veen e Be Vrakking – Homo Zapiens: educando na era digital.

  • Habilidades icônicas

    Gerações passadas foram treinadas para ler textos impressos com apenas duas cores, centrando-se unicamente em caracteres semânticos. O processo de leitura começa no canto superior esquerdo da tela. As crianças conectadas não se prendem a essa visão: aprenderam que ícones, símbolos e cores fazem parte da informação, para além dos caracteres.

  • Zapear

    Essa geração consegue processar informações descontínuas e fazer um resumo conciso dos vários canais a que assiste. Literalmente, as crianças conseguem pensar em hiperlink. Isso faz com que processem três vezes mais informação em uma hora que um adulto.

  • Comportamento não linear

    Já na infância, as crianças conectadas aprendem a usar uma estratégia centrada em palavras-chave para encontrar a informação que procuram. Passam a ler somente aqueles parágrafos que lhes parecem mais significativos e não se limitam a uma única fonte: aproveitam informações diferentes e de diversos canais para construir um conhecimento significativo a partir de todas elas.

  • Habilidades colaborativas

    Crianças aprendem com os games que a colaboração é um caminho eficaz para a resolução de problemas. Assim, desenvolvem um senso maior de organização e liderança.

5. A economia da impaciência

Com smartphones atuando como cordões umbilicais digitais, o consumidor moderno é sempre ligado. Infelizmente para o horário comercial, ‘dias úteis’ são um conceito ultrapassado.

David Moony, gerente estratégico da KANA

Pense bem: em um dia normal, você utiliza pelo menos seis meios de comunicação digitais que podem servir como ponto de contato com uma marca – e-mail, Google, um portal de notícias, Facebook, Instagram, Twitter e por aí vai. Diante de tantas opções, uma marca possui pouquíssimo tempo para se destacar e criar uma conexão com um consumidor que está navegando na internet. Mais ainda, tudo o que pode atrair a atenção desse potencial consumidor torna-se um concorrente: não só outras marcas, mas também outros vídeos, textos e fotos de gatinhos, que são muito mais interessantes.

E qualquer segundo pode fazer a diferença na realização de uma compra. O relatório de 2014 da Radware mostrou que o tempo de carregamento ideal de uma página não deve ultrapassar três segundos. O Walmart, por exemplo, descobriu que cada segundo ganho em tempo de carregamento do site resultava em 2% de aumento de conversão em venda. Para a Staples, esse aumento chegou a 10%.

Para o Google, o tempo de carregamento ideal deve ser ainda menor: 300 milissegundos. O que significa que o usuário pode considerar uma página lenta demais e desistir de acessá-la em um piscar de olhos, literalmente. Agora, imagine o que esses usuários pensam de problemas como esperar em filas ou lidar com atrasos e cancelamentos. Algumas marcas já apresentam soluções para trazer a rapidez do mundo virtual para a realidade. É o caso da Amazon, que lançou, para os seus clientes Prime, uma opção de entrega no mesmo dia em que o pedido foi feito. A divulgação do serviço diz tudo: "No patience required".

Mas o principal desafio para as marcas nesse novo mindset é a velocidade com que os consumidores querem (e podem) adquirir informações sobre o seu produto ou serviço. A explosão do mobile, aliada ao poder das redes sociais, fez surgir um novo comportamento de consumo. Apenas para citar um exemplo, 85% dos usuários de smartphone pesquisam, dentro da loja, sobre o produto que pretendem adquirir. Segundo o Google – que já é acessado mais em dispositivos móveis que em desktops –, a jornada de compra está sendo dividida em diversos micromomentos de interação entre marca e consumidor, e que podem definir se a compra será concretizada ou não.

Nesse cenário, saem na frente as marcas que conseguem estabelecer uma conexão nesses micromomentos, quando o consumidor se volta para o dispositivo digital em busca de respostas rápidas: comparações de preços, tutoriais, solução de problemas e imprevistos, planejamento de novas compras, o que o cliente precisar.

6. A contratendência

Vão se tornar cool, em algum momento, as pessoas que têm o comportamento contrário a isso [...]. Igual já é feio estragar o meio ambiente, vai ser feio ter o comportamento conectado.

Valéria Brandini, antropóloga

Crianças ansiosas, adultos impacientes. Ninguém mais consegue se relacionar sem ser por meio da tela do smartphone. Somos uma geração perdida? Tenha calma, a realidade não é tão apocalíptica assim.

Ao mesmo tempo em que conhecemos o FOMO em 2013, em 2014 vimos a sua contratendência nascer: o JOMO, ou Joy Of Missing Out. Literalmente, a alegria de ficar de fora, uma rebelião contra a necessidade de dizer “sim” para tudo, participar e registrar o que aparece pela frente sob pena de morrer de ansiedade se não o fizer. É uma ideia que valoriza o pensamento crítico e a contemplação. Em outras palavras, viver o momento, e não apenas registrá-lo.

Raquel Camargo, diretora da empresa de marketing Lhama.me, teve a ideia de criar um evento "zen" para a turma hiperconectada. Assim, nasceu o Vivência Fora de Área, um detox digital cuja proposta é fazer os participantes ficarem um dia desconectados em uma pousada holística em Santo Antônio do Leite, participando de atividades e reflexões com metodologias de conversação, colaboração e musicoterapia. Porém, Raquel conta que a desconexão foi difícil para algumas pessoas:

Teve gente que ficou desesperada em um dia só de evento. Uma profissional precisava estar sempre disponível para seu chefe (até no domingo) e não conseguiu ficar longe do celular. As pessoas também queriam registrar o momento com suas câmeras. Eu não proibi, então muita gente não resistiu e acabou se sentindo culpada depois. Mas aí, gera a reflexão: as pessoas estavam vivendo o presente ou apenas fotografando? O pessoal fica muito apegado no registro do presente e acaba deixando de viver.

Raquel Camargo, criadora do Vivência Fora de Área

A foto acima mostra bem como funciona a cultura do registro. No entanto, a imagem viralizou exatamente pela valorização da atitude da idosa no centro da foto: o não registro automático e o foco em uma atividade só como forma de reestabelecer uma conexão real com a vida.

A alegria de estar por fora

Por ter saído do Facebook acabei virando uma personagem para matérias. O viés inicial costuma ser sobre este grande vício e sobre a dificuldade de sair da rede. Diante de minhas respostas geralmente vem a frustração do jornalista: para mim foi muito fácil sair. Difícil era a overdose de sentimentos que tomavam conta de mim quando estava lá! Mal percebia, mas vivia com a constante sensação de estar 

perdendo leituras incríveis, eventos espetaculares, viagens fantásticas. Precisava acompanhar cada nova ideia, cada novo projeto, ler cada novo post. Já há mais de 2 anos sem Face, me sinto muito mais tranquila. A vida parece mais simples e possível! A cada escolha uma renúncia, então sei que perco muita coisa boa também. Mas essa parte eu não sei porque sem ver o coração não sente. Não me contem!

por Luiza Voll, idealizadora do Instamission

Pisar no freio do FOMO já mostra seus impactos nos negócios de diversas marcas. Essas já começaram a entender que tanta ansiedade pode acabar gerando um colapso coletivo e, por isso, estão criando produtos e experiências para pessoas que desejam se desconectar e recarregar a energia da própria cabeça.

Já vi casos na Alemanha – onde têm uma produtividade muito grande e são muito focados – que, no momento em que a pessoa sai do trabalho, a conta de e-mail corporativa é bloqueada e outras pessoas não podem ligar para esse funcionário, é proibido. Isso é uma atitude respeitosa, de criação de parâmetros do que é aceitável.

Valéria Brandini, antropóloga

E em Belo Horizonte?

Porém

86%

dos entrevistados acreditam que estamos em uma geração em que é válido realizar esse tipo de atividade

91%

não conhecem o termo Detox Digital

Quer saber mais sobre a cultura slow em BH? Em novembro, será lançada a primeira edição do Guia Slow Lifestyle. Segundo os idealizadores do guia, “a ideia é reunir, em uma mesma publicação, marcas, produtos, serviços e iniciativas em geral que contribuem para a vivência e o fortalecimento do conceito slow. Inovações sustentáveis, bem-estar, tudo aquilo que contribui para uma vida mais saudável e leve e um retorno de valores adaptados ao mundo conectado, à conscientização sobre o consumo consciente e uma nova economia.

Será que você está se conectando mais com seu celular que com as pessoas ao redor?

No final das contas, a questão que fica é como vamos nos posicionar para lidar com o uso da tecnologia na escola, no trabalho, na vida pessoal – para sabermos nos conectar com o que realmente importa.

Raphaela Simões é especialista em massagem tailandesa no Núcleo Jak Pilozof, em Belo Horizonte. Segundo ela, o momento cultural em que estamos nos faz viver o tempo todo fora do presente, sempre preocupados com o futuro. E, assim, não vivemos com atenção plena.

Ainda de acordo com ela, estamos armazenando informações de maneira aleatória e compulsiva, o que pode ser um problema para a saúde mental. "Não temos a consciência de que, ao ingerir muita informação, precisamos compensar de alguma forma para silenciar a cabeça". Mas Raphaela também dá uma dica para nos ajudar:

Uma coisa muito fácil de fazer é: toda vez que perceber que está divagando nas redes sociais, mude de atividade e vá fazer outra coisa. Pratique a atenção plena. Se está respondendo a uma mensagem, responda e termina. Temos a cultura de começar e não terminar nunca. Muitas vezes estamos respondendo e-mails e nos perdemos nas abas abertas. Começou, termine. Se não está conseguindo, se pergunte por quê. Estamos normalmente muito agitados e não conseguimos parar. Tem uma respiração da ioga que é para isso: inspire, conte os segundos que inspirou e expire com os mesmos segundos. A respiração ajuda muito.

E assim, chegamos ao momento da segunda frase de José Saramago:

Não tenha pressa, mas não perca tempo.

Entrevistas

Valéria Brandini, graduada pela UNICAMP e PhD em Ciências da Comunicação pela USP, atualmente é pesquisadora sênior da UNICAMP na área de Antropologia Empresarial, com foco em Antropologia do Consumo. Possui mais de dez anos de experiência na área de antropologia aplicada ao mercado.

Raphaela Simões, massoterapeuta com formação em Chiang Mai, Tailândia. Especializada em Massagem Tradicional Tailandesa e em práticas meditativas de cura. É Deeksha Giver, Reikiana e Instrutora em Adkhara Yoga e Meditação Tailandesa.

Raquel Camargo, fundadora da agência Lhama.me e professora. Desenvolveu projetos no Escritório de Prioridades Estratégicas do Governo de Minas relacionados à inovação, mídias sociais, empreendedorismo e participação social. Também é idealizadora do grupo de estudos de comunicação digital e mídias sociais Lhama Knowledge.

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