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#13

Olimpíadas

OLIMPÍADAS

Um termômetro dos Jogos Olímpicos Rio 2016

As Olimpíadas do Rio ainda nem começaram e já estão dando o que falar. Infelizmente, as manchetes de jornal têm passado longe do esporte. Na primeira edição do evento no Brasil, escândalos políticos, o medo da violência e os alertas por causa do Zika vírus dão o tom de uma festa ainda incerta para o mundo. Em meio a tanto descrédito, descobrimos, com big data e desk research, como anda o coração dos brasileiros.

Estamos a cerca de uma semana da abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. No dia 5 de agosto, a festa no estádio do Maracanã marca oficialmente o ínicio de uma das mais aguardadas – e também temidas – edições do maior evento esportivo do mundo.

De ameaças de cancelamento e transferência da cidade-sede até a euforia dos fãs de Anitta e dos pedidos por Pokémon Go no Brasil, as Olimpíadas do Rio tiveram de tudo um pouco no longo caminho percorrido até aqui.

Infelizmente, o cenário de instabilidade vem afastando as expectativas de que o evento seja um grande marco histórico. À grave crise política e econômica em que se encontra o país somam-se ainda ameaças terroristas e a epidemia do Zika vírus, que fez com que atletas das mais diversas nacionalidades desistissem da briga por medalhas.

Apostas sensacionalistas já estão sendo feitas pela mídia especializada. Mas, diante de tudo isso, qual a opinião dos brasileiros? Em tempos de globalização, as redes sociais surgem como termômetro moderno dos ânimos de uma nação que, pela primeira vez, receberá uma Olimpíada.

O Rio de Janeiro é anunciado como candidato a cidade-sede dos Jogos de 2016, ao lado de Baku, Chicago, Madri, Praga e Tóquio.

2007

Em uma disputa com Madri, nossa cidade maravilhosa é oficialmente escolhida para sediar o evento.

2009

A presidente Dilma Rousseff lança, em Brasília, o Plano Brasil de Medalhas e anuncia investimento de R$ 1 bilhão em esporte para a preparação de nossos atletas olímpicos e paralímpicos.

2012

Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

R$ 36,7 bilhões. A primeira estimativa oficial de custo global dos Jogos supera a Copa em 43%. O valor contempla ainda obras no metrô, expansão de linhas de ônibus, cuidados com o meio ambiente e melhorias na infraestrutura do Rio para os Jogos.

Abril
2014

Rumores de que membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) teriam procurado autoridades de Londres para saber se a cidade poderia assumir a edição de 2016 se espalham.

Maio
2014

Os mascotes olímpicos e paralímpicos aparecem publicamente pela primeira vez, batizados de Vinícius e Tom, respectivamente.

Setembro
2014

Rudy Trindade/ Frame/ Estadão Conteúdo

O custo das Olimpíadas é atualizado pelo Governo e sobe para R$ 38,2 bilhões.

Abril
2015

Análise realizada pela Associated Press encontra bactérias de esgoto em locais que serão utilizados para competições aquáticas olímpicas. O IPEA rebate a denúncia, garantindo que a Baía de Guanabara e a Lagoa Rodrigo de Freitas estão próprias para uso dos atletas.

Julho
2015

Antonio Scorza / Shutterstock.com

Revista Forbes publica artigo de cientistas pedindo o cancelamento dos Jogos Olímpicos por causa do surto de Zika.

Fevereiro
2016

Vídeo do site chinês TomoNews satiriza as Olimpíadas no Rio, dando destaque a problemas como segurança, saúde e poluição e sugerindo ainda o cancelamento dos jogos.

Abril
2016

A menos de 80 dias da abertura oficial do evento, seis obras seguem inacabadas: Velódromo Olímpico, Arenas Cariocas, Centro Principal de Mídia (Hotel e MPC), Centro Olímpico de Tênis, Estádio Aquático Olímpico e a Vila dos Atletas.

Maio
2016

Divulgação

Rede hoteleira do Rio já registra 90% de ocupação, segundo dados divulgados pela Embratur.

Maio
2016

Governo do Rio de Janeiro decreta estado de calamidade pública devido à crise. Situação impede inclusive o cumprimento das obrigações assumidas em decorrência da realização da Olimpíada e da Paralimpíada.

Junho
2016

Edilson Rodrigues/ Agência Senado/ Fotos Públicas

O Velódromo, obra mais atrasada, é entregue pela Prefeitura ao Rio 2016.

Junho
2016

André Durão

A cantora Katy Perry lança o single “Rise”, feito para a rede de TV americana NBC usar durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Julho
2016

Anitta, Caetano Veloso e Gilberto Gil são confirmados como atrações do evento oficial de abertura.

Julho
2016

Washington Possato

COM A PALAVRA, OS ANFITRIÕES

O nível de desinteresse dos brasileiros pelas Olimpíadas parece ser inversamente proporcional à proximidade do evento, assim como os índices de rejeição. Pelo menos, é o que indica uma pesquisa do DataFolha divulgada no dia 19 de julho.

Nível de interesse em relação aos Jogos Olímpicos

Índice de rejeição dos brasileiros

Legado do evento

O que o Brasil está sentindo?

Para entender o que o brasileiro tem a dizer sobre os Jogos Olímpicos, filtramos e analisamos mais de 120 mil interações publicadas no Twitter nos últimos meses.

O desinteresse da população fica claro com o alto número de menções que não são nem positivas nem negativas:

Classificação das menções mapeadas

Vários assuntos relacionados ao evento foram discutidos nas redes sociais. A situação política do país, uma grande preocupação em relação à segurança e a boa e velha zoeira que nunca acaba estiveram presentes nos comentários dos brasileiros.

Assuntos com o maior número de menções:

Segurança: "Revezamento de fuzil 4x100"

A preocupação com a segurança pública do Rio de Janeiro é latente. Ao mesmo tempo que muitos falam do clima de insegurança habitual presente na cidade, existe um grande receio de uma possível onda ainda maior de violência durante os Jogos. O episódio recente, de furto dos participantes do ensaio da cerimônia de abertura, gerou uma onda de comentários.

“Só foi um ensaio, nas Olimpíadas essa modalidade (roubo de celular) vai bombar.”

“Minha mãe começou com o discurso de 'vocês não vão sair pra lugar nenhum' durante as Olimpíadas.”

“Não oferecem segurança o ano inteiro, aí faltando um mês para as Olimpíadas querem arrumar os problemas? Me poupem.”

Pokémon Go: "Bubassalto, eu escolho você!"

A declaração recente do prefeito Eduardo Paes, pedindo para que o aplicativo Pokémon Go chegasse ao Brasil antes das Olimpíadas, também gerou grande repercussão. Uma série de menções criticava o prefeito que, segundo os internautas, estava preocupado com uma questão pouco importante diante da situação da cidade. A internet não perdoa.

“Como que o Brasil vai fazer as Olimpíadas se não tem estrutura nem pra receber o Pokémon Go?”

“Eduardo Paes, quero Pokémon Go no Brasil antes das Olimpíadas para ver se vai aumentar os Bubassaltos.”

“Pode atrasar obra da copa e das Olimpíadas, mas a estrutura para receber o Pokémon Go eu quero pronta no prazo.”

Anitta: "O Brasil não é sua playlist"

O anúncio da cantora Anitta como uma das atrações da cerimônia de abertura também dividiu os internautas. A maior parte das menções relacionadas à cantora, no entanto, são positivas. Muitos usuários comentaram a participação da estrela pop como mais uma forma de representar a pluralidade cultural do Rio de Janeiro e do Brasil. Os mais conservadores não gostaram muito da escolha. Para aqueles que preferiam os clássicos de Chico Buarque, por exemplo, a internet rapidamente respondeu: o Brasil não é a sua playlist.

“Anitta vai se apresentar na abertura das Olimpíadas sim. Se não gostou, faz um passaporte e sai do país, linda.”

“Para completar o “desastre Brasil” só faltava a Anitta ser escolhida para representar a cultura brasileira nas Olimpíadas. Opa, já era!”

“Nada mais apropriado do que Anitta cantar na abertura das Olimpíadas do Rio 'bang dei um tiro certo em você.”

Desconfiança: "Medalha de ouro em vergonha!"

O clima do país não é o de maior estabilidade, por uma série de razões, uma vez que precisamos colocar na conta a crise política, o momento complicado da economia, o índice de desemprego, entre vários outros fatores. Essa desconfiança, naturalmente, se estende para as Olimpíadas: ao que parece, a expectativa não é alta.

“O que fizeram com nosso país? Dentro de poucos dias começam as olimpíadas e não vejo entusiasmo em ninguém.”

“Se eu fosse os gringos, não viria pro Brasil nas Olimpíadas não.”

“Brasil se preparando para as Olimpíadas é igual mãe arrumando a casa pra esperar visita.”

Humor Brasileiro: “Eu não tava fugindo não, senhor. Eu tava treinando para as Olimpíadas.”

Como já se tornou regra em todo assunto que repercute nas redes sociais, o melhor do Brasil é sempre o brasileiro. Vários comentários bem humorados foram coletados em nosso processo de análise. Por aqui, selecionamos apenas alguns que a nossa equipe gostou mais:

“Meu pagamento passou tão rápido pela minha mão que ele deveria representar o Brasil nas Olimpíadas nas provas de velocidade.”

“O bom das Olimpíadas serem no Brasil é que se a gente tiver perdendo a gente pega a bola e leva embora. É nossa mesmo!”

“Essas Olimpíadas vão ser que nem a minha vida: um fracasso.”

PATROCÍNIO: GASTO OU INVESTIMENTO?

O pouco interesse dos brasileiros com os Jogos, assim como a imagem negativa que vem sendo construída do país e, consequentemente, do evento no exterior, são uma grande preocupação também para os patrocinadores. A partir de sua associação direta às Olimpíadas Rio 2016, as marcas temem que suas reputações sejam comprometidas e que os frutos dos investimentos milionários não possam ser colhidos.

Afinal, quais os benefícios trazidos pelo patrocínio de um evento dessas proporções? Qual o impacto das ações de marketing de cada uma dessas marcas na percepção e na decisão de compra do público final? Para começar, tente se lembrar do banco oficial das Olimpíadas. Agora, pense na empresa de telefonia que vai garantir a conectividade durante os jogos. Aposto que da cerveja você se lembra. Não?

Na lista principal figuram mais de 20 empresas atuantes nos mais diferentes segmentos, divididas em três categorias. Apesar das inúmeras regras, muitas marcas pegaram carona no evento e foram mais bem-sucedidas do que as patrocinadoras oficiais.

Patrocinadores Olimpícos Mundiais

Patrocinadores Oficiais dos Jogos Olímpicos Rio 2016

Apoiadores Oficiais dos Jogos Olímpicos Rio 2016

Mais do Brasil, menos dos patrocinadores

Para a realização deste estudo, selecionamos três patrocinadores oficiais das Olimpíadas Rio 2016: Skol, Bradesco e Claro. Considerando os vídeos mais recentes lançados por essas marcas, constatamos que há um volume muito baixo de menções às Olimpíadas em comparação com o universo total de interações válidas mapeadas sobre os Jogos.

Skol: 0,01% do total de menções.

Claro: 0,03% do total de menções.

Bradesco: 0,08% do total de menções.

Considerando o contexto no qual as Olimpíadas estão inseridas, seja em escala Brasil ou mundial, outras questões parecem povoar as discussões com mais ênfase, o que acaba deixando pouco espaço para os patrocinadores. A visibilidade gerada por investimentos dessa natureza parece não estar gerando, portanto, a repercussão positiva esperada.

“Quero só ver a vergonha que vamos passar quando os turistas vierem para as Olimpíadas e descobrir que Dolly Guaraná é o sabor brasileiro.”

Quem mais entende de Brasil lá fora?

Muitos patrocinadores e não patrocinadores internacionais dos Jogos Olímpicos estrearam, recentemente, campanhas temáticas para o maior evento do esporte mundial. Em muitos casos, a representação "tradicional" e estereotipada do Brasil ganhou espaço nos anúncios estrangeiros. O filme da BBC, por exemplo, gerou uma série de comentários nas redes sociais, dizendo que a emissora britânica tinha confundido o Brasil de 2016 com aquele de 1516.

Quem mais acertou a mão, pelo menos na opinião dos internautas brasileiros, foi a marca norueguesa de artigos esportivos XXL, que lançou um vídeo mostrando um Rio de Janeiro que muitos preferem não ver. A campanha conta, ainda, com a presença de um dos maiores ídolos do esporte nacional.

A ação, que traz como mote o poder de união e comunhão do esporte, não parou por aí: a marca escolheu apoiar um projeto social de educação e instrução na Favela da Maré que tenta dar mais oportunidades para crianças e jovens em situação de risco. O Projeto Uerê tem, no esporte, um dos seus principais aliados no processo de aprendizado e, por isso, a associação não poderia fazer mais sentido.

NO FIM, SOMOS SEMPRE TORCEDORES

O que se pode notar é que há uma inversão do sentimento muito clara na população: se antes as Olimpíadas eram encaradas como um evento que poderia trazer várias oportunidades para o país, os Jogos acabaram se tornando mais um problema na conturbada conjuntura brasileira.

Ainda que, neste momento, haja uma boa dose de desinteresse e outra grande parcela de ânimos exaltados, com uma agressividade perceptível circundando o tema, é importante ficar atento para um possível "Efeito Copa do Mundo". Em 2014, o Brasil já vivia um momento difícil e passou por essa fase de repúdio. Não ia ter Copa, lembra? No entanto, quando a bola começou a rolar, a hospitalidade, simpatia e espírito de festa brasileiros, que fazem nossa cultura ser reconhecida como uma das mais calorosas do mundo, acabaram dominando e fazendo uma festa sem maiores contratempos.

Pode ser também que aquela coisa mágica da brasilidade, que acaba fazendo as coisas darem certo – ou perto disso – acabe aparecendo no final e os Jogos Olímpicos Rio 2016 sejam um sucesso. Por aqui, essa é a torcida.

ola@atualizeme.com