Trabalho

O futuro do trabalho, ao que tudo indica, será bem diferente do que a gente conhece hoje. Com novas tecnologias e gerações mais jovens - e impacientes - entrando em cena, a flexibilidade parece ser cada vez mais importante, assim como a busca pela realização pessoal e atividades com propósito. Mas não pense que isso é papo para Os Jetsons: o futuro está logo ali, virando a esquina.

ago.2015

O futuro do trabalho é um futuro sem trabalho! As discussões sobre o que será das nossas vidas profissionais começam em torno da definição da palavra jobless (sem trabalho, numa tradução livre). Não ter mais trabalho, para muitos, significa que o avanço tecnológico, inexoravelmente, vai engolir quase todas as formas de trabalho que conhecemos na atualidade. Uma visão trágica de um futuro onde o desemprego atingirá índices absurdos. Outros compreendem a ideia de um futuro jobless no sentido de sem emprego. Seremos todos empreendedores das nossas próprias carreiras, customizando e trabalhando como donos dos próprios negócios e serviços. Uma visão talvez  mais de curto prazo, um movimento que já

se observa nos dias de hoje. Já os positivistas ousam ir mais longe: acreditam num futuro no qual começaremos trabalhando, em média, 4h por semana (para evitar o desemprego e garantir que todos tenham o que fazer) até, em algum momento, o trabalho passar a ser um hobby, sem um valor agregado.

O que une todas essas possíveis conversas é um acordo implícito de que o crescimento exponencial de tecnologias como inteligência artificial, realidade aumentada, impressão 3D e algoritmos de data mining trará um inevitável impacto em como vivemos nossas vidas neste planeta e possivelmente até mesmo em outros.

É. Esta edição do Atualize-me já começa mostrando que o que entendemos por trabalho pode ser muito diferente em um futuro que já não está tão longe de nós. Mas não é nem para assustar e nem para sentir medo. Vamos trazer várias novidades que podem parecer assustadoras. Mas confie na gente, vai dar tudo certo.

Quem nos traz essa visão do futuro é a mineira Mariana Fonseca, que se formou pela Singularity University em Futurismo. A Mari é jornalista, empreendedora social, especializada em Inovação e Educação e ainda tem um mestrado em globalização, mídia e internacionalização. Com essa bagagem toda, foi convidada para voltar ao Vale do Silício, no campus da Singularity, que fica localizado no parque de pesquisas da NASA. Por lá, são desenvolvidos vários estudos sobre o futuro e a nossa correspondente está trabalhando na equipe que realiza o programa de graduação. E não pense que é porque é a NASA falando que está longe de nós. Ao contrário: está mais perto que imaginamos.

É o que diz a Mari: "Tudo o que está sendo dito sobre a vida profissional do futuro parece normal. Já é muito presente na vida da maioria dos empreendedores que conheço. Pode não ser uma realidade concreta para todos que ainda cumprem horários e batem ponto, mas no sentido de valorizarem os seus sonhos, a qualidade do que fazem, por que fazem e o legado que estão deixando.”

O grande ponto é que os profissionais atuais, mais jovens, procuram novas motivações para sair de casa cedo, engolir um sapo ou outro e superar os desafios do dia a dia do trabalho. Essa motivação está no encontro entre o que você ama, aquilo em que você é muito bom, o que o mundo precisa e, claro, o que paga as contas. É aí que se encontra propósito. E no propósito se encontra a motivação que todos precisam.

1. Reconhecendo a caminhada

Desde que o homem é homem, o trabalho está associado à sobrevivência. Mas, da escravidão à CLT, das corporações de ofício ao microempreendedor individual, muita coisa mudou. As relações de trabalho evoluíram ao longo dos anos e, hoje, o trabalho está associado também ao desenvolvimento pessoal.

Até o
séc. XVIII

Produção Artesanal

O trabalho ocorria em oficinas coletivas e os trabalhadores participavam de todo o processo de confecção dos produtos, separados em grupos heterogêneos e divididos entre mestres e aprendizes. Homens, mulheres e crianças participavam das atividades, usando ferramentas manuais.

Século XIX

Manufatura

Com a Primeira Revolução Industrial, por volta de 1780, veio a mecanização dos processos de produção. A mão de obra era formada principalmente por artesãos e camponeses, que se submetiam a condições de trabalho precárias, salários baixos e jornadas de até 80 horas semanais.

Século XX

Taylorismo e a Divisão de Tarefas

Em 1911, Frederik Taylor, pai da Administração Científica, introduziu a divisão de tarefas nas fábricas, com o objetivo de aumentar os lucros por meio da alta produtividade e rendimento com o mínimo de tempo e de esforço. Foi o início da era das tarefas repetitivas e das burocracias trabalhistas.

Século XX

Fordismo e a Produção em Massa

Aprimorando as ideias de Taylor, Henry Ford, fundador da Ford Motor, criou em 1914 a linha de produção em massa, sustentada pela padronização dos processos. Considerado uma “ultramoderna linha de produção”, o Fordismo surgiu como um conjunto de mudanças nos processos de trabalho, introduzindo o conceito de semiautomatização e as linhas de montagem que revolucionaram não só a indústria automotiva, mas inspiraram outros modelos de negócio.

Século XX

Teoria das Relações Humanas

Se opondo às ideias de Taylor, Elton Mayo conduziu, em 1927, um estudo para entender a relação da produtividade com as condições sociais impostas aos trabalhadores. Com o objetivo de valorizar a força de trabalho, criou a Teoria das Relações Humanas, em que afirma que o nível de produção é determinado pela integração social e não pela capacidade física dos operários. Começa aqui um tímido movimento que substitui a ênfase nas tarefas pela ênfase nas pessoas.

Século XX

Produção Enxuta

Em 1950, Sakichi Toyota, fundador da Toyota, idealizou o modelo de produção enxuta, também conhecido como filosofia just in time. Nesse sistema de trabalho, não há estoque e a produção é baseada na quantidade de peças necessárias em determinado momento, fazendo com que os operários ganhem autonomia para interromper o processo de produção.

Século XX

Gestão Moderna

Em 1954, o austríaco Peter Drucker publicou A Prática da Administração, lançando as bases da gestão moderna, estabelecendo o papel do gerente e elaborando o método de gestão por objetivos.

Em 1964, menos de 20 anos depois da chegada de ENIAC (primeiro computador do mundo), 35 cientistas e ativistas sociais, incluindo vários ganhadores do Prêmio Nobel, enviaram uma carta ao presidente Lyndon B. Johnson advertindo que "a revolução cibernética" criaria "uma nação separada dos pobres, dos trabalhadores não qualificados, dos desempregados".

The Triple Revolution, por Linus Pauling

Século XX

Inovação

Na década de 1970, após a Terceira Revolução Industrial, surgiu uma geração de empreendedores voltados a novas tecnologias que transformariam a maneira de a sociedade interagir, se relacionar e trabalhar. Bill Gates criou, em 1975, a Microsoft. No ano seguinte, Steve Jobs fundou a Apple e criou o Macintosh, primeiro microcomputador com interface gráfica, revolucionando o mercado.

Século XX

Revolução da Internet

Em meados da década de 80 surgiu a internet, que revolucionou a sociedade como um todo. Possibilitando a globalização e o acesso ao conhecimento, ela transformou o mercado de trabalho e deu origem a diversos novos tipos de emprego, alterando a lógica vigente. Nessa época, começaram a surgir negócios virtuais que fomentam a cultura da liberdade e criatividade.

Século XX

Indivíduo x Organização

Em 1997, o consultor Tom Peters publicou o artigo “The Brand Called You”, que levantava a bandeira de que cada indivíduo deveria ser CEO da própria vida profissional. Reflexo da redução dos empregos formais, esse modelo de pensamento pregava o aumento de projetos autorais, diminuindo o vínculo dos indivíduos com as organizações.

Século XXI

Era Digital

A partir dos anos 2000, a vida digital começou a ganhar mais força. A lógica de trabalho, antes presa ao horário comercial, agora não conhece barreiras. Com gadgets eletrônicos e uma boa conexão, os profissionais ficam 24 horas por dia conectados. Em um ambiente virtual, sem fronteiras geográficas, é possível trabalhar de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora do dia. Isso reconfigurou o modelo de trabalho e deu a ele novo significado, em uma era em que os indivíduos buscam não somente ganhos financeiros, mas propósito em tudo o que fazem.

Ao mesmo tempo, é preciso considerar as mudanças culturais pelas quais a sociedade passou nesse mesmo período. Aliás, é impossível separar as duas coisas: a forma como encaramos o trabalho tem impacto direto na sociedade e em seu desenvolvimento econômico, político e cultural. A cada revolução, novas formas de pensar se desdobram em mudanças de paradigma capazes de alterar todo o funcionamento do mercado. E assim, cada geração percebe as mudanças de maneira diferente.

Como cada geração compreende o trabalho?

A evolução do trabalho e as suas configurações se dão não só por razões tecnológicas, mas por questões culturais e sociais. Assim, a forma como cada geração encara o trabalho tem impacto no desenvolvimento econômico, político e cultural de uma sociedade. Cada nova mudança de paradigma é capaz de alterar o funcionamento do mercado e estamos vendo isso acontecer muito claramente no momento atual.

BABY BOOMERS

Estabilidade

Muito importante para uma geração nascida no pós-guerra

Longevidade

Uma carreira longa é garantia de sucesso financeiro

Horários Definidos

Casa e trabalho não se misturam

GERAÇÃO X

Ambição

Têm ideias na cabeça e se arriscam mais

Velocidade

Com suporte de novas tecnologias, querem altos cargos hierárquicos em curto espaço de tempo

Workaholics

A competição aumentou e a disputa por remunerações mais altas se associa à quantidade de trabalho

GERAÇÃO Y

Realização Pessoal

Associam trabalho, prazer e propósito

Ansiedade

Hiperconectados, esperam mudanças e ascensões em velocidade ultrarrápida

Projetos Curtos

Impacientes, têm dificuldade em se dedicar por muito tempo aos mesmos projetos

GERAÇÃO Z

Digital

A tecnologia é extensão da personalidade

Impaciência

Acostumados com informações em tempo real e interações dinâmicas

Futuro

Serão a mola propulsora do mercado de amanhã

Novas gerações e o futuro do trabalho

À medida que as inovações chegam ao mercado, novas indústrias e modelos de negócios são criados, alterando a forma como as pessoas se comunicam, colaboram e trabalham. Com a colisão de gerações no mesmo ambiente, a força de trabalho se torna mais diversificada, causando conflitos que levam a crer que os modelos de carreira tradicionais em breve poderão ser coisa do passado.

Não é de se espantar que o mercado esteja se transformando - afinal, hoje, os Millennials já representam a maior parte da força de trabalho. Com uma capacidade menor de estabelecer vínculos a longo prazo, essa geração prioriza trabalhos em projetos de menor duração, o que representa um enorme desafio para as empresas reterem tais talentos.

Ao mesmo tempo, a Geração X ainda representa uma parcela enorme de trabalhadores. Normalmente, são os que ocupam cargos mais altos em empresas tradicionais e precisam lidar diretamente com o novo modo de pensar dos seus contratados mais jovens.

Apesar disso, em pesquisa recente da TNS Global, apenas 19% das empresas entrevistadas afirmaram ter planos de criar ou disseram já estar criando estratégias para reduzir a distância entre as gerações no ambiente de trabalho. Nesse contexto, mesmo com poucas ações para adaptar a realidade das empresas aos novos trabalhadores, é possível começar a ver novas modalidades de trabalho surgindo, valorizando a liberdade, flexibilidade e mobilidade dos profissionais.

As maiores preocupações das novas gerações

Uma pesquisa conduzida pela Adecco, empresa especializada em Recursos Humanos, aponta as principais preocupações das gerações Y e Z em relação à busca por empregos.

Mas não gastam muito tempo procurando emprego

(médias semanais)

31%

31% buscam estabilidade financeira

28%

28% querem encontrar o emprego dos sonhos após a faculdade

O que é o emprego dos sonhos?

Muitos acham que a universidade não os prepara para o mercado

30%

30% sentem falta de aplicação da teoria na "vida real"

18%

18% sentem falta de oportunidades de estágio promovidas pela universidade

13%

13% esperavam mais contatos com profissionais formados pela mesma universidade

A nova jornada de trabalho

Em estudo sobre a nova jornada de trabalho, a PwC indica que as pessoas passam por muito mais empregos e mudanças profissionais durante suas carreiras que algumas décadas atrás. O número de trabalhadores temporários cresceu, o crowdsourcing é cada vez mais comum para gerar inovações e as empresas começaram a se organizar para executarem projetos em curto ou médio prazo. O que ainda não fica claro, no entanto, é como a segurança e os benefícios do emprego permanente são substituídos.

O suporte tecnológico também é base dessa nova lógica do mercado, uma vez que trabalhar não exige mais espaço físico ou horário determinado. A Economia Criativa, fruto da Era da Informação, vem crescendo muito, dando vida a modelos de negócio que ultrapassam barreiras geográficas e apresentam infinitas possibilidades para a força de trabalho do século XXI. Esses profissionais são

escolhidos por seu conhecimento individual e podem atuar a partir de qualquer lugar que ofereça conexão.

Nesse contexto, o tal Nomadismo Digital cresce e ganha força, com empreendedores e profissionais autônomos que trocam a rotina do escritório por uma vida de trabalho flexível e viajante. A viagem pelo mundo vem para suprir a necessidade da liberdade e também da mudança constante: novos destinos, novos projetos, novas equipes e novas realidades.

Claro, nem todos os mercados e profissões aceitam, ainda, essa realidade. Áreas mais ligadas à criatividade são as primeiras a se adequar a essas mudanças, que lentamente vão ganhando espaço. Hoje, já existem várias iniciativas para facilitar as relações de trabalho de quem optou pela flexibilidade.

Todos juntos

Com o número de freelancers crescendo no mercado de trabalho, os espaços de coworking estão recebendo uma demanda crescente. No Brasil, já são 238 espaços ativos, segundo pesquisa do CoWorking Brasil. Esses espaços misturam profissionais de várias áreas em um só espaço, favorecendo a interação social, a troca de experiências e o nascimento de novas ideias. E tem espaços para todas as demandas:

Quem já testou só vê benefícios

A OfficeVibe, empresa focada em criar ações para engajamento de funcionários dentro de empresas, realizou uma pesquisa com profissionais que já fizeram uso de espaços de coworking.

Levando o trabalho para casa

Outra possibilidade para quem quer mais flexibilidade - e que também representa redução de custos para as empresas - é o home office. Trabalhar de casa já é realidade para 24% dos americanos. Apesar de o Brasil não ter estatísticas oficiais nesse sentido, 4 a cada 10 brasileiros esperam poder trabalhar de casa nos próximos anos.

Ao contrário do que víamos há alguns anos, com profissionais isolando completamente as suas vidas pessoais e profissionais, com o trabalho virtual disponível 24/7, esses dois lados acabam se misturando. Especialmente no Brasil: segundo pesquisa da TNS encomendada pela Dell, os brasileiros são os profissionais mais propensos a lidar com assuntos profissionais mesmo depois do expediente.

Com todas essas mudanças, a busca por qualidade de vida é um dos novos determinantes de sucesso. A dobradinha dinheiro e poder não é mais suficiente, segundo Arianna Huffington, autora de "Thrive: a terceira medida do sucesso": agora também se busca bem-estar, admiração, sabedoria e compaixão.

Assim, o clichê do profissional estressado pode estar com os dias contados. Tendo em vista a possibilidade de aumentar a produtividade, a concentração e a redução do estresse, a prática do Mindfulness nas empresas é um caminho cada vez mais adotado, com a empresa oferecendo sessões de terapia, meditação e coaching para os funcionários.

Se a sua empresa não te ajuda…

Você mesmo pode se ajudar a ser mais concentrado e menos estressado com o auxílio do seu smartphone:

Um trabalho que faça sentido

As noções de sucesso, no entanto, não foram modificadas somente no sentido da busca por equilíbrio. A Economia do Propósito, liderada pelas gerações Y e Z, associa o trabalho e a satisfação pessoal à realização de um propósito. Valem mais os relacionamentos, o crescimento pessoal e o impacto social que necessariamente uma grande mudança econômica.

Nessa tentativa de encontrar um trabalho que faça sentido, os negócios sociais ganharam força: gerar impacto para a sociedade e, ao mesmo tempo, lucro é a grande meta.

Descubra o seu propósito: o Imperative é um quiz para ajudá-lo a entender qual é o seu propósito e o que te faz mais motivado. 

Como você pode contribuir?

Recentemente, o discurso de formatura da Columbia University foi de Ben Horowitz, autor do livro "The Hard Thing About Hard Things: Building a business when there's no easy answer". Ben, que é sócio de um grande fundo de investimentos norte-americano que costuma injetar capital em startups, provoca todos os formandos: talvez o ideal não seja perseguir aquela atividade que você ama - e provavelmente não é tão bom assim.

O que é o melhor que você pode fazer para contribuir?

2. A ruptura

"Quem não se lembra dos Jetsons, que viviam em um futuro em que os carros dirigiam sozinhos, a empregada era um robô, assim como o cachorro. Máquinas preparavam comida e a família toda se comunicava por televisões e relógios superinteligentes. Tudo isso faz parte da realidade hoje. Tudo bem que o Roomba (o robô que varre a casa) ainda está muito longe da superempregada dos Jetsons, mas que já podemos imprimir comida em 3D, que falamos por aí no FaceTime como se fosse normal e que temos robôs de companhia ninguém pode negar. Uma forma mais pragmática de sentir o que significa a curva exponencial é observar todos os aparelhos que há dez anos tínhamos em casa: telefone fixo, bipe, câmera fotográfica, filmadora, CD player, computadores desktop. Todos eles cabem no seu smartphone. Para ser ainda mais matemática, vou citar a frase clássica dos ex-alunos da Singularity. Exponencial é simples assim: com 30 passos normais você atravessa um auditório, com 30 passos exponenciais (1, 2, 4, 8, 16, 32, 64…) você pode dar mais de dez voltas na Terra. Essa é a velocidade em que as coisas estão mudando, e não é à toa que achamos que o tempo esta acelerando."

A Teoria de Moore foi criada em 1965 e prevê que a tecnologia nos computadores dobraria, em média, a cada 18 meses, mas mantendo o mesmo (ou até menor) custo e espaço.

Essa teoria se comprovou ao longo dos anos e permanece válida até hoje, abrindo espaço para futuristas preverem um crescimento exponencial também em outras áreas tecnológicas, todas capazes de transformar o nosso cotidiano. Conseguimos vislumbrar a curva da exponencialidade na energia, na medicina, na biologia sintética, na manufatura, na robótica. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo agora.

Futuristas (e escritores de ficção científica) há muito tempo olham para o mercado de trabalho – e toda a tecnologia em seu entorno – imaginando o fim dos processos cansativos e o início de uma era da tomada do mercado pelas máquinas. E já estamos chegando em um momento no qual cientistas e engenheiros estão literalmente criando ferramentas para acabar com o nosso trabalho. Mas será que isso realmente deveria nos assustar?

“Já pensou onde vamos se a Siri está para o futuro como os carros de bois estavam para o nosso passado?"

De acordo com o autor Richard Lieberman, teremos três revoluções tecnológicas que mudarão o futuro do trabalho:

Agora, pense: você certamente já ouviu falar de todas essas tecnologias. Estamos no ponto de virada para obtermos computadores superpoderosos disponíveis em larga escala, com capacidade de armazenamento ilimitada e sensores infinitos para observar, medir e fornecer informações e instruções sobre tudo. Esse tipo de infraestrutura já é uma realidade, mesmo que não esteja tão próxima do nosso dia a dia atual.

A existência dessas ferramentas é capaz de redefinir todo o ambiente de trabalho e como realizamos nossas tarefas. Mas, na verdade, o avanço da tecnologia não deveria nos assustar - até porque é inevitável. O nosso desafio é entender como acompanhar essas mudanças e evoluir junto com elas.

Para onde estamos caminhando?

Eu vejo o movimento em direção à inteligência artificial e robótica como evolucionário, parte porque é um salto sociológico. A tecnologia pode estar pronta, mas nós não estamos - pelo menos, ainda não.

Geoff Livingston, autor e presidente da Tenacity5 Media

É possível reconhecer seis drivers de mudança social, estudados pelo Institute for the Future, que explicam as razões para a necessidade de uma ruptura do modelo de trabalho atual.

Longevidade extrema

Estima-se que, em 2020, o Brasil terá cerca de 28 milhões de habitantes com mais de 60 anos. Durante os próximos anos, veremos o desafio do envelhecimento da população vir à tona: novas percepções do que significa envelhecer começarão a ganhar força, fazendo com que cada um de nós repense a sua abordagem em relação à carreira, vida familiar e educação. Ter múltiplas carreiras será comum, assim como o aprendizado contínuo ao longo da vida.

Novo ambiente de comunicação

Ao mesmo tempo, temos que aprender a abordar o conteúdo com mais ceticismo, tendo a percepção de que o que você vê hoje pode ser diferente amanhã. Não só temos várias interpretações de eventos registrados, mas com captura e vigilância onipresentes, os eventos serão vistos de vários ângulos e perspectivas, cada um, possivelmente, contando uma história diferente de eventos individuais. Reputação e gerenciamento de identidades on-line já são uma realidade, trazendo novos níveis de transparência ao nosso trabalho e vida pessoal.

Estamos vivendo um momento de transformação na maneira como nos comunicamos. À medida que as tecnologias de produção de mídias se tornam mais sofisticadas, desenvolvemos uma nova linguagem para a comunicação. Com a expansão de um conteúdo cada vez mais visual e virtual, estamos impondo novas demandas sobre a nossa atenção e forma de cognição. Literalmente, a forma como um filho pensa e entende um conteúdo é diferente da forma dos pais.

Ascensão das máquinas e sistemas inteligentes

Claro, alguns postos de trabalho rotineiros serão tomados
por máquinas - inclusive isso já está acontecendo. Mas o verdadeiro poder das tecnologias de robótica reside na sua capacidade de aumentar e aprimorar as nossas próprias capacidades. Vamos entrar em um novo tipo de parceria com as máquinas, baseada em nossos pontos fortes mútuos, resultando em um novo nível de colaboração homem-máquina e codependência.

Uma nova geração de sistemas automatizados inserida no nosso sistema de trabalho nos obrigará a estabelecer novas expectativas e padrões de desempenho e nos forçará a enfrentar questões importantes. Em que o ser humano é realmente bom? Qual é a nossa vantagem comparativa? E qual é o nosso lugar ao lado dessas máquinas?

Mundo computacional

sistemas sociais em escalas extremas, tanto micro quanto macro, ajudando a descobrir novos padrões e relacionamentos que eram anteriormente invisíveis. Como resultado, as nossas vidas profissionais e pessoais exigirão cada vez mais habilidades para interagir com dados, analisar, compreender e tomar decisões baseadas em padrões, utilizando-os para projetar para os resultados desejados.

A difusão de sensores, formas de interação e poder de processamento em objetos do cotidiano e ambientes desencadeará uma torrente sem precedentes de dados e a oportunidade de ver os padrões e sistemas de projeto em uma escala nunca antes possível. Tudo com o que entrarmos em contato poderá ser convertido em dados.

Inauguraremos uma era onde "tudo é programável”. A enorme quantidade de dados permitirá a modelagem dos

Organizações mais conectadas e mais sociais

Novas tecnologias e plataformas estão redefinindo a forma como criamos e produzimos valor. Inteligência coletiva e recursos incorporados em conexões sociais com milhares de pessoas tornam possível alcançar o tipo de escala anteriormente atingível apenas por grandes organizações. Em outras palavras, podemos fazer coisas fora dos limites organizacionais tradicionais, graças a sistemas colaborativos que conectam pessoas e ideias afins. Sistemas abertos e ferramentas compartilhadas alterarão as normas sociais, políticas e econômicas a que estamos habituados.

Mundo globalmente conectado

Em seu nível mais básico, a globalização é uma tendência de longo prazo em direção a um maior intercâmbio e integração para além das fronteiras geográficas. Em nosso mundo globalmente conectado e interdependente, organizações oriundas de mercados e recursos limitados de infraestrutura em países como a Índia e a China já estão desenvolvendo trabalhos inovadores em um ritmo mais rápido que países desenvolvidos em áreas como a de tecnologias móveis. Hoje, a inovação está em qualquer lugar, e o sistema de produção não se concentra em um só ponto, mas aborda o melhor que cada região oferece.

Como algumas empresas já estão rompendo com a lógica do mercado - e como isso afeta a rotina dos profissionais

Para ser disruptivo, não basta ser uma melhoria, tem que romper com o padrão existente. É algo que fura a fila.

Luli Radfahrer, consultor em inovação digital
e colunista de tecnologia do jornal Folha de S.Paulo

Quem inventou o termo inovação disruptiva foi Clayton Christensen, autor do livro O dilema da inovação, considerado uma bíblia no Vale do Silício. Para o escritor, mesmo as empresas que agem corretamente - investem em seus funcionários e em inovação, ouvem seus clientes - estão sujeitas a fechar devido a uma inovação disruptiva que acabam por colocar um mercado consolidado de pernas para o ar. Qual foi a última vez em que você comprou um filme da Kodak? E um celular da Nokia? Ou quem sabe alugar um filme na Blockbuster?

Acontecimentos completamente inovadores surgem a todo momento ao longo da história. O que mudou é a velocidade com que essas transformações estão ocorrendo. Produtos e serviços disruptivos, que implicam em grandes transformações no mundo todo, estão surgindo com cada vez mais frequência, a exemplo de câmeras digitais, smartphones, Google, Netflix, Waze, entre outros. Essas empresas e produtos têm influenciado diretamente na forma como as pessoas trabalham e se relacionam com as atividades responsáveis pelo seu sustento.

Airbnb

Criado por três jovens americanos (Brian Chesky, Nathan Blecharczyk and Joe Gebbia), o Airbnb é um dos ícones da inovação disruptiva. A ideia é simples: o sistema serve como intermediário entre pessoas que topam colocar quartos ou apartamentos à disposição e quem deseja alugá-los por um período de tempo.

A empresa cresceu 800% de janeiro de 2010 a janeiro de 2011. Em uma entrevista dada ao site Mashable, Joe Gebbia definiu como candidato ideal para trabalhar na empresa uma pessoa com forte sensibilidade de design - uma qualidade salientada por ele como sendo a segunda paixão da empresa. Além disso, o futuro funcionário deve ter a capacidade de reconhecer uma boa experiência do usuário. Afinal, como aponta Gebbia, "o Airbnb é, em última estância, um serviço e um produto que vive ou morre pela experiência do usuário.”

"Eu sou anfitriã Airbnb, administro anúncios de pessoas que querem participar, mas não querem administrar. Ajudo pessoas todos os dias, sejam para se hospedar ou para ser anfitrião, que me procuram espontaneamente. Atuo numa plataforma de customer care, que é remunerada, mas terceirizada, e administro o grupo que criei de anfitriões Airbnb em Belo Horizonte. No primeiro encontro mundial em São Francisco, fui convidada pela empresa para dar dois workshops e foi maravilhoso. Apenas 40 pessoas no mundo foram convidadas."

A mineira Renata Alamy hospedou-se pelo Airbnb na Guatemala em 2012 e ficou encantada com o serviço. Voltando a Belo Horizonte, viu que poderia ser uma oportunidade para se reinventar.

Renata tinha acabado de fechar a sua loja e estava com uma grande dívida. Estava trabalhando como freelancer e já tinha vendido quase tudo da sua casa, mas achou que poderia tentar começar devagar. E não imaginou que em BH haveria tanta procura.

Foi aí que percebeu que ser anfitriã do Airbnb poderia salvá-la. Decidiu ser a melhor anfitriã do mundo - e mesmo sabendo que existem tantos bons no mundo, o desejo de ser a melhor mudou a vida da mineira.

A visão de Renata para o futuro do trabalho:

Tudo está mudando e o emprego está se tornando uma ideia antiga de relação de trabalho. A economia colaborativa trouxe a possibilidade de as pessoas empreenderem e se tornarem protagonistas. Possibilitou que as pessoas deixassem empregos dos quais não se identificavam, desempregados, aposentados, donas de casa, jovens e quem quer que seja, e transformassem as suas habilidades ou bens ociosos em renda. Isso é maravilhoso. Fora isso, a inovação tecnológica está criando substitutos para inúmeras funções e atividades. A quebra desses paradigmas vai levar a uma mudança, que já está acontecendo, para um cenário de ambientes fluidos, parcerias de trabalho, pessoas com projetos diversos e diversificados e muito empreendedorismo.

EatWith

Imagine você agendar um jantar na casa de um estranho em qualquer lugar do mundo? Parece o Airbnb, mas na verdade a plataforma da qual estamos falando agora é o EatWith. Fundada em 2012 pelos israelenses Guy Michlin e Shemer Schwarz, a proposta é conectar refeições e anfitriões, criando uma experiência social única onde os convidados podem conhecer um ao outro enquanto saboreiam um autêntica refeição caseira.

A empresa hoje tem mais de 500 anfitriões em 160 cidades distribuídas em 30 países ao redor do mundo. Possui 18 funcionários e está mudando a sede de Tel Aviv para São Francisco.

Os anfitriões, além de abrir as suas residências para conhecer novas pessoas, ainda conseguem ganhar um dinheiro extra realizando uma atividade que amam. Por sua vez, os convidados têm a oportunidade de dividir histórias com pessoas de diferentes origens e culturas.

Em breve, o site lançará uma ferramenta em que anfitriões e convidados podem receber críticas e elogios. Assim, o anfitrião que receber o maior número de elogios receberá uma espécie de selo de qualidade da EatWith. Cada perfil contém fotos das refeições que já aconteceram no local, bem como o custo de participar do evento na casa do anfitrião e o número de convidados que o apartamento pode receber. Além disso, o perfil aponta se a residência aceita receber crianças e animais de estimação, permite fumar, tem wi-fi, estacionamento e quanto tempo o evento costuma durar.

A maioria dos anfitriões ainda usa a plataforma mais com o objetivo de socialização. No entanto, existem boas exceções. Recebendo 14 convidados, quatro vezes por semana, os israelenses Yael Sela e Keren Ella Gefen afirmam ganhar entre U$ 3.750 e U$ 5.000 por mês.

A plataforma nos ajudou a realizar o nosso sonho, com uma grande dose de liberdade, em oposição a um restaurante onde o serviço é impessoal. O menu é conhecido com antecedência e a refeição é esperada sem surpresas.

Yael Sela e Keren Ella Gefen,
sobre a experiência de serem anfitriões do EatWith

Zappos

Vendida para a Amazon por US$ 1 bilhão, a Zappos é uma empresa que vende sapatos on-line. Mas seu grande diferencial não é o seu negócio, mas como ela faz negócio: a Zappos foi fundada em 1999 pelo americano Tony Hsieh, que montou a empresa baseado nos conceitos da cultura da holocracia.

Segundo o criador desse modelo de gestão, a holocracia é uma espécie de “tecnologia social”. A empresa passa a funcionar de acordo com as funções que precisam ser desenvolvidas, separadas em círculos interdependentes. Cada círculo está conectado a outros, mas tem autonomia para criar a própria forma de trabalho.

O maior objetivo da holocracia é criar um ambiente corporativo dinâmico onde todo mundo tem voz e a burocracia não sufoca a inovação. Existem supervisores, mas não gerentes. Os 1.500 funcionários da empresa definem o que necessitam fazer e qualquer um pode definir a pauta de uma reunião.

Em outras palavras, Hsieh construiu uma cultura dedicada ao empoderamento dos seus funcionários e promete entregar felicidade por meio de clientes satisfeitos e valorização da sua equipe. O empresário foca em três áreas críticas que usualmente empresas falham em considerar como planejamento estratégico do negócio: cultura corporativa, treinamento e desenvolvimento. Esses pilares e um bom atendimento ao consumidor são o segredo para o seu sucesso.

3. O modelo do futuro: e agora?

"Desenhar um cenário perfeito do futuro do trabalho é complexo. Em contrapartida, acontecimentos atuais, tecnologias e soluções que já estão no mercado hoje são suficientes para nos dar frio na barriga e talvez uma primeira espiada no que está por vir. Se há muito os robôs assustavam profissionais em trabalhos repetitivos e burocráticos, hoje fica difícil enumerar áreas nas quais a tecnologia não fará grandes transformações. De robôs escrevendo matérias para a Forbes a empresas nas quais inteligências artificiais ditam as regras, nenhum trabalho ficará ileso. As apostas são de que 50% das profissões que conhecemos hoje deixarão de existir num futuro próximo (2030 talvez), onde motoristas, jornalistas, pilotos, advogados, corretores, entre outros, serão automatizados. A pergunta aqui é: qual é a nossa habilidade para nos adaptarmos com a mesma velocidade com que a tecnologia se desenvolve?"

Pesquisadores da Oxford University previram, em 2013, que metade dos trabalhos dos EUA serão executados máquinas em até duas décadas. Parece complicado, mas olhe quais trabalhos empregam a maior parte dos cidadãos norte-americanos:

Somadas, essas 4 funções empregam 15,4 milhões de norte-americanos. E são funções facilmente automatizáveis.

Mas não são apenas essas áreas. Talvez, em breve, você estará fazendo terapia com um robô. O mesmo estudo da Oxford confirmou que muitas pessoas preferem relatar seus problemas para uma máquina, que é livre de julgamentos. Calma, não estamos condenando os psicólogos ao fracasso, mas vamos ser sinceros: quem aqui nunca perguntou uma dúvida secreta para o Google? Os computadores podem, sim, adentrar qualquer área profissional e, por isso, precisamos estar sempre prontos para nos adaptarmos.

Apesar de reconhecer a possibilidade de um futuro complicado em decorrência da redução dos postos de trabalho, Federico Pistono, autor do livro Robots Will Steal Your Job But That's OK, é otimista. Para ele, “a mesma automação que é responsável pelo fim dos empregos poderia ser capaz de produzir tudo o que precisamos para satisfazer às necessidades básicas humanas: alimentos, energia, segurança e transporte. Com isso, caberia às pessoas decidir o que fazer com o próprio tempo. Estariam livres para se dedicar às suas verdadeiras paixões”.

No entanto, aqueles que têm uma visão menos positiva acreditam que, apesar de várias questões básicas serem solucionadas, problemas de âmbito social e econômico decorrentes de um mercado sem trabalho serão inevitáveis.

Se pudermos desenvolver as estruturas econômicas necessárias para distribuir a prosperidade que estamos criando, a maioria das pessoas já não terá que trabalhar para se sustentar. Elas estarão livres para perseguir outros esforços criativos. O problema, porém, é que, sem emprego, elas não têm a dignidade, o compromisso social e o sentimento de realização que vem de trabalho. A vida, a liberdade e a busca da felicidade (que a Constituição nos credencia a não ser através do trabalho) terá de vir através de outros meios

aponta o pensador Peter Vander Auwera.

"Se por um lado existe uma corrente de pensadores preocupada com o fato de que as novas carreiras que surgirão com as tecnologias podem não ser suficientes para solucionar o gap gerado por essa aceleração descontrolada, por outro, para outros, um futuro sem trabalho será um futuro com uma nova organização social, onde nossas vidas não serão mais definidas por agendas e compromissos profissionais, e onde trabalhar não significa sobreviver ou pagar as contas. Uma visão mais positiva, onde o modelo econômico atual se adaptará à uma nova organização social onde a força de trabalho será baseada em muitos robôs, algoritmos e inteligência artificial. Os mais extremistas, que devem ser mencionados, como o próprio Stephen Hawking, chegam a assustar muita gente ao dizer que quando tivermos uma inteligência artificial completa e governando o mundo, esse será o fim da raça humana.

Quem está certo? Impossível dizer. Se há uma coisa que os futuristas que conheci concordam é que o futuro não é só um. Ele é feito de possibilidades e depende muito mais das pessoas do que da tecnologia. Dito isso, gostaria de deixar um poema que vi hoje:

'Only as high as I reach can I grow
Only as far as I seek can I go
Only as deep as I look can I see
Only as much as I dream can I be'

Karen Ravn"

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